segunda-feira, 29 de abril de 2013

Ela era linda, mas Henry nem viu seu rosto.


        Não me lembro muito bem que horas eram quando cheguei ao aeroporto de Miami, Estava com o relógio biológico fora de sintonia com tudo que estava lá fora, sabia disso porque eu tinha visto pela janela do avião que estava escuro, mas eu me sentia como se mal fossem seis da manhã. Não que isso fosse de grande importância, mas sabia que de certa forma era bom sinal eu estar vendo aquele céu negro. Aquele céu me dizia que eu já não estava tão longe do destino final e de algum tempo relaxando, apenas cerca de seis horas – no máximo seis e meia. Lembro de sentir meu coração palpitando logo que o avião pousou, tamanho o nervosismo. Não era pra menos, eu não estava muito afim de ser mais um brasileiro deportado. “Você não foi aceito em nosso país, portanto terá de pegar o próximo avião com destino à São Paulo, e nunca mais poderá voltar aos Estados Unidos da América!”. Foi tudo que imaginei quando saltei do avião. Bom... Se fosse assim, eu pelo menos tinha estado por quinze minutos em solo americano... melhor que você.
      E mesmo não lembrando qual número o relógio local marcava com certeza eu lembro da moça gordinha que me aguardava. Uma das coisas boas em ser menor e estar viajando sozinho de avião é o tratamento que te dão. As aeromoças te paparicam sem a menor cerimônia, como se você realmente fosse importante - eu poderia me acostumar. Seja um cobertor a mais, ou um cookie, eu na vejo problema... Mas, como sempre, temos os pontos fracos. Ou no caso “o ponto fraco”, pra ser mais exato. É que a paparicarão passa dos limites, você tem de estar sempre acompanhado, é imperativo... sempre! No avião é mais sutil, mas sempre tem alguém, pelo menos, de olho em ti. Você vai ao banheiro, ou coçar as costas, e se olhar de soslaio, vai ver alguém esquisito te observando (só faltam binóculos...). No avião é mais tranqüilo. Você ainda pode ir no banheiro sozinho, ou ir na cozinha pedir mais uma lata de refrigerante. Nada demais. Mas espere chegar ao aeroporto, parece que quando se chega ao aeroporto, é normal pensarem que deve ter drogas na sua mochila, ou que tem algum plano para matar o presidente, escondido no bolso interno do seu casaco. É sério, dá vontade de fugir, de tanto que te tratam como alguém que quer fugir.
   No meu caso essa moça gordinha era Nancy, vestia um uniforme branco e azul marinho, com o emblema do aeroporto bordado no peito, calçava sapatilhas pretas, e tinha as bochechas rosadas, e aparentava ter uma imensa paciência e boa vontade naqueles um metro e sessenta. No caso, ela seria minha acompanhante, mas não desse tipo, ela era encarregada de me guiar e conduzir enquanto eu estivesse no aeroporto. Sim, eu tinha uma babá. E ela não desgrudava de mim. Eu parava pra amarrar os cadarços do meu sapato, e lá estava ela quase me engolindo com os olhos. E quando eu inventei de dar uma rápida parada pra comprar uma lata de coca-cola, quase vai pro espaço minha paciência, ela me tratava como se eu fosse um garoto de cinco anos e com paralisia cerebral – nada contra quem tem cinco anos e tem paralisia cerebral, ok? – era insuportável, apesar dela não ser agressiva, dava a impressão de que a qualquer momento iria pular em mim (meu gato faz a mesma coisa quando vê um passarinho). E lembro-me de ouvi-la falar ficar à ponto de rir. Ela forçava o inglês mais simples que conseguia, com as palavras mais bobinhas que conseguia encontrar, ainda por cima usava um tom de jardim de infância, como se eu realmente fosse retardado – não que eu tenha um inglês impecável, mas eu poderia entender melhor do que aquilo. Mas como era minha primeira viagem, eu fiquei temeroso, talvez não fosse a melhor coisa dizer “pare de me tratar como retardado, eu sei colocar uma nota de dólar numa máquina de refrigerante!”, isso com absoluta certeza não passaria a imagem de um jovem educado e cordial. E eu precisava passar essa imagem pra não ser mandado de volta à Tihuana-todos que vêm de baixo dos EUA são obrigatoriamente deportados pra Tihuana. Então era melhor continuar a ser tratado como retardado pra depois conseguir dar umas voltas em Hollywood, não que isso tirasse a sensação de quase ser um retardado.
    De qualquer forma, ela não desgrudou de mim, por qualquer motivo que fosse, pelo menos andamos um pouco no aeroporto, era imenso, montes de corredores e saguões, terminais, halls, lojas e muitas cadeiras pros que esperavam o vôo. Tinha até um trem... E nós o pegamos. Nancy me disse que era só pra ir pro outro lado do aeroporto, que andar demoraria demais, e me cansaria. Maldita seja a preguiça humana, colocar um trem pra te levar pro outro lado do aeroporto... Em que ponto chegamos?
    O trem não era grande, era quase como uma miniatura dos metrôs de São Paulo. De certa forma, tinha algo familiar neles, talvez o cheiro fosse o mesmo. Andamos três estações. Descemos na “estação três” e andamos mais um pouco pela imensidão do aeroporto. Tinha uma iluminação forte, se não fossem pelas grandes janelas que davam vista pra pista de pouso, eu não saberia se era dia ou noite. E era, diferente do aeroporto de Guarulhos, estava quase vazio, e viam-se uns poucos passageiros perdidos por lá, como se fosse baixa temporada (ainda que faltassem cinco dias pro Natal). Isso aumentava ainda mais a sensação de deserto daquele lugar, eu teria me sentido quase sozinho se não fosse por Nancy babando em mim.
      Assim que descemos do trem, Nancy me levou para um lugar cheio de guichês, disse-me que eu tinha que fazer uma entrevista antes de “entrar em solo americano”. Sim, eu poderia ser deportado se não respondesse exatamente aquilo que eles queriam que eu respondesse. Eu fui direto pra um guichê do tipo “preferencial”. E lá tinha um cara, com farda de policial (ou guardinha de aeroporto, quem sabe). E ele falou de modo rude:
_O que você veio fazer nos Estados Unidos da América? - falou o guardinha.
_Passar as minhas férias.
_Quanto tempo você vai ficar?
_Até meio de fevereiro.
_Você estuda? Se sim, quando voltam suas aulas?
_Sim, eu estudo, e elas voltam no meio de fevereiro – voltavam antes, mas vai que... Né?
_Hmmm, Onde você vai ficar? – eu não entendi nada do que ele tinha dito nessa frase, então olhei pra Nancy, que compreendeu que eu não tinha entendido, e então repetiu a frase com um pouco mais de calma.
_Vou ficar em Los Angeles, com um amigo.
_ Ok, pode passar – e então ele carimbou alguns documentos e os entregou para Nancy.
     Eu estava faminto, então perguntei se não tinha algum lugar decente por ali. Sabe como é, comida de avião não enche de verdade, e eu precisava de alguma coisa pra me segurar de pé. Então, como se finalmente eu tivesse falado alguma coisa que fosse útil, ela sorriu, e apontou com a mão uma lanchonete logo à nossa frente. Era uma lanchonete bonita. Tinha aspecto daquelas que aparecem em filmes dos anos sessenta, ou setenta, aonde os jovens bacanas iam. Aqueles lugares onde tinham vários carrões estacionados na parte de fora, enquanto os caras com grandes topetes e garotas com vestidos de bolinha sentavam nas mesas, comendo seus hambúrgueres e tomando seus milkshakes enquanto conversavam. Era realmente pra ser uma lanchonete assim, não tinham carrões estacionados, era dentro do aeroporto, e não tinham os jovens bacanas com jaquetas de couro dentro, aliás, tinha só um cara perdido lá, numa mesa com uma só cadeira, e ele não demonstrava muito interesse nas coisas ao redor. Mas era bem decorada a lanchonete. E enquanto eu pedia, reparei nas paredes pintadas de branco, com quadros que eram fotos de carros antigos, nas mesas amarelas e nas cadeiras vermelhas. Eu pedi um clássico, um hambúrguer, um copo de coca-cola e uma porção de batatas fritas. Deram-me o copo, e apontaram a máquina onde eu deveria pegar meu refrigerante. O pedido não demorou, aliás, foi rápido demais, eu mal tive tempo de escolher uma mesa, e eles já estavam me chamando pra buscar a comida. Nancy deve ter achado que eu não era capaz de ir lá, e foi ela mesma, pegar a bandeja. Ela me entregou, e disse-me que faltava ainda cerca de uma hora e meia pro meu vôo partir, e que por esse motivo não era necessário que eu me apressasse. E não estava nos meus planos me apressar. Comi com uma calma de rei, e fiquei olhando pro corredor do aeroporto logo à minha frente. Engraçado. Vazio demais. No Brasil, qualquer lugar que você fosse iria parecer um formigueiro, e ali estava calmo demais... Nancy não comeu nada, e nem deveria comer mesmo, tinha aparência de quem comia ali todo dia. Mas ficou me olhando comer com muita atenção. Ainda bem que eu não me sujei com catchup, eu tenho certeza de que tinha um guardanapo na mão dela pra me limpar caso isso acontecesse. Eu terminei de comer meu hambúrguer e as batatas, e então, antes de sair, enchi meu copo mais uma vez, e então perguntei pra Nancy se teríamos de ir a algum lugar mais, ou se ficaríamos ali mesmo até a hora do meu vôo.
   Ela falou com aquele tom dela, que iríamos voltar a andar. Eu simplesmente comecei a segui-la. Voltamos aos corredores, e ela tentava imprimir um ritmo um pouco maior, claramente com traços de ansiedade, tão esquisitinha. “Estamos indo à sala de menores”, ela disse. E é claro que a imaginação foi a mil. Eu logo imaginei uma sala quadrada, com as paredes pintadas de cinza, e com a tinta descascando, um lugar totalmente deprimente, com cara de repartição pública, e lá teriam várias crianças e adolescentes, sentados em cadeiras de madeira, olhando fixamente pro chão, e completamente em silêncio, enquanto numa mesa sólida de mogno uma mulher velha estaria digitando num computador velho, e essa mesa teria também vários papéis, como se fossem processos. Eu fiquei completamente em pânico, eu preferia ficar na lanchonete vendo o cara esquisito comer aquele hambúrguer pela eternidade. Um lugar desses me dava arrepios. Eu não estava preparado pra tudo aquilo, sou claustrofóbico, e não curto detenção, e não é minha praia ficar uma hora esperando meu vôo num lugar daqueles. Não adiantou eu me afligir, pois pelo visto já estava bem próximo da tal sala. Eu vi uma placa que apontava pra direita, e dizia “Sala dos menores”. Que seja, eu não vou exatamente morrer lá dentro - espero.
    Mas, aquele dia se mostrava incomum, e manteu-se assim, e me surpreendeu mais uma vez. Tive uma surpresa quando entrei na sala, era quase o contrário daquilo que eu tinha imaginado. Era grande, muito bem iluminada, com paredes pintadas de verde, branco, e com desenhos de vários personagens de desenho animado, tinha sofás e poltronas vermelhas, duas estantes de livros, perto dessas estantes tinha uma grande mesa redonda com lápis de cor, giz de cera, e papel pra desenhar. Era igual uma sala de jardim de infância, a não ser pelas televisões de tela plana e os dois vídeo-games que lá estavam. Mas é claro, eu tinha acertado – em parte – num aspecto daquela sala. Tinha uma mulher, numa mesa grande atulhada de papeis, com um computador (novo) digitando freneticamente sem olhar pro teclado. Era uma mexicana, cerca de cinqüenta anos. Ela não tinha um olhar severo que nem gente velha geralmente tem, pelo contrário, parecia-se com uma vovó que diz que você está magrinho.
   Quando eu entrei na sala ela se levantou, e falou seu nome. Consuela. Ela vestia o mesmo uniforme de Nancy. Era realmente muito simpática, e não tentava falar um inglês mais simples do que era normal pra ela, e o sotaque dela fazia tudo soar de forma engraçada e honesta. Ela disse alguma coisa do tipo “agora quem te acompanha sou eu, rapaz, pode relaxar por ai, quando for a hora eu te chamo”. Despedi-me de Nancy, e como o garoto cordial que eu sou, agradeci a paciência que ela tinha tido comigo. Nancy riu, e disse que nunca tinha cuidado de alguém que não tivesse dado trabalho, eu tive que rir disso, vai que me mandam pra terra de Consuela, não queria ir pra Tihuana, muito quente e muito mexicano pra mim. Ela se virou e saiu, provavelmente babar no pescoço de algum outro coitado.
   Consuela já estava de volta a sua mesa, digitando no computador. Aquele tec-tec frenético era mais comum entre os jovens, mas ela digitava com grande maestria, devia fazer aquilo à tempos. Eu então pude voltar a ser quem eu realmente sou. Me dirigi apático a um sofá vermelho. Sentei-me e abri minha mochila, de lá eu saquei meu livro e notas de um dólar. “O crepúsculo dos ídolos” era o livro, quando fiz isso, Consuela me olhou esquisito. Eu era o único ali com um livro em mãos. Levantei e fui pegar um refrigerante num daquelas máquinas de um dólar. Coloquei a nota de um dólar e apertei o botão... Ouvi o som da lata caindo. Me virei e vi uma máquina de salgadinhos. Coloquei mais um dólar e peguei um Cheetos. Não que eu estivesse com fome, mas aquela sala de jardim de infância me dava tédio. E só então eu me dispus a prestar atenção em todos os que estavam naquela sala. Tinham dois garotinhos loiros, irmãos gêmeos, de uns sete anos, que estavam jogando vídeo-game. Tinha também uma menina mexicana de uns onze anos, sentada na mesa redonda, e olhando fixamente para uma foto, ela tinha uma expressão perigosa, do tipo que enfia um canivete na sua barriga se você tentar falar com ela... Não valia o esforço. Mas não foram eles que chamaram a atenção. Pois, logo que estava voltando pro meu lugar, com meu salgadinho e minha lata de refrigerante, notei uma das coisas mais lindas e intrigantes que eu já tinha visto na minha vida. Aquele espelho devia ter uns dois metros, e estava incrivelmente limpo, era quase como se eu estivesse andando em direção à mim mesmo, e como eu sou bonito... Devo ter ficado um minuto todo olhando o espelho (ou uma hora, quem liga pra tempo quando se vê alguém tão incrível quando eu mesmo?).
   Eu sentei no sofá, e comecei a comer o salgadinho. Era salgado demais, e sujou muito minhas mãos. Mas logo acabei o pacote e tomei meu refrigerante. Eu queria ler, mas minhas mãos não deixariam que eu lesse sem sujar todo o meu livro. Pedi à Consuela que me mostrasse onde era o banheiro, eu ia aproveitar a ocasião e tirar a água do joelho. Ela me pediu pra esperar na porta da sala “por um instante”. E então aconteceu algo que eu devia ter previsto. Um guarda chegou e falou que iria me acompanhar até o banheiro. Era tão difícil assim chegar ao banheiro? Ou eles achavam que eu realmente queria fugir? Tanto faz, eu já estava seguindo o guarda até o banheiro, ele me esperou na porta, enquanto eu usava. Pelo menos ele não entrou comigo... Lavei a mão, mijei, e lavei as mãos de novo – sou limpinho. Quando sai, o guarda esticou o pescoço pra dentro do banheiro (devia estar procurando alguma bomba ou drogas/ armas que eu devia ter largado lá). E me escoltou até a sala dos menores de novo.
   Quando eu cheguei na sala, tive uma surpresa que faz meu tédio sumir tão rápido quanto possível. Tinha uma pessoa a mais, sentada num banco de madeira junto à parede. Uma garota de uns quinze anos. Linda. Era japonesa, com certeza, parecia uma boneca, ou alguma coisa ainda mais bonita e perfeita. Tinha a pele muito branca, os cabelos negros e brilhantes que chegavam até o meio de suas costas, e os olhos... Aqueles olhos eram incríveis. Eram negros e profundos. E tinha um brilho perigoso no fundo daqueles olhos tão lindos. Como se tivesse alguma fera aprisionada ali. E com certeza entendia de moda. Pois apesar de estar viajando ela ainda estava impecável. Vestia uma camiseta do Motorhead, uma jaqueta de couro, uma calça jeans escura, justa e rasgada, e botas, que lembravam algo do tipo “botas de pirata”, pois tinham fivelas grandes e prateadas. Enquanto eu... Minha camiseta do Ac/Dc já estava toda amassada, meus tênis estavam velhos e desamarrados, eu tinha derrubado óleo de hambúrguer na minha calça, e também no meu casaco – sim, um charme, como sempre.
    Mas notei também, que apesar de estar impecável, e ser absurdamente linda, ela não se mostrava exatamente empolgada. Parecia, na verdade, que ela não se sentia muito bem, espero que não seja diarréia, ou alguma coisa que não seja sexy... Isso quebra o clima.
   E eu, como a doce pessoa que sou, tive de ir ajudá-la, sem segundas intenções, é claro. Eu bem sei que em alguns momentos as pessoas precisam de um abraço, um carinho, ou qualquer coisa do tipo... E porque não eu? Fui o mais rápido que pude para a maquina de refrigerante e peguei mais uma lata. Voltei e sentei-me ao lado dela. Abri o refrigerante, e pra puxar assunto, eu ofereci pra ela um gole de coca-cola (e é nessa hora que se espera que aconteça igual na propaganda da televisão, eu dou a coca pra ela, ela sorri, e depois de quinze segundos nós estamos nos beijando, sem segundas intenções, é óbvio). Ela me olhou fixamente, de maneira fria e ao mesmo tempo intensa, e por um instante eu me senti transparente, senti um enorme calafrio apenas com o olhar dela, e naquele mesmo instante eu pensei em abandonar toda e qualquer posição cavalheiresca que eu tivesse dentro de mim, e ir correndo pro sofá chorar igual uma garotinha sem sua barbie. Mas por algum motivo, qualquer estúpido motivo que fosse, eu não fui pro sofá. Eu fiquei lá, e abracei Nietzsche o mais forte que podia, e desejei que ele tivesse deixado o pobre e fraco Deus vivo, assim talvez ele pudesse me ajudar. De qualquer jeito, naquele momento era eu, Nietzsche e aquela linda garota que com certeza era uma super ninja que trabalhava pra máfia. Mas em vez de pular em mim, arrancar meus braços e enfia-los nos orifícios mais óbvios, ela só disse, com a voz mais doce que já tinha ouvido “não, obrigado”. A voz era doce, mas o tom era frio. E parou de olhar pra mim, simplesmente esqueceu de que eu estava ali, e voltou a fitar a parede oposta. Que diabos tinha acabado de acontecer?  Eu tinha de puxar assunto, era compulsório. “Muito legal sua camiseta”, eu disse, tentando parecer alguém com classe, com meu sotaque de brasileiro. Ela olhou pra mim de novo, me salva Nietzsche, joga seu bigode nela! E sorriu. Eu tive uma experiência de quase morte nesse momento, eu tenho certeza que meu coração parou. “Deus está morto, né? Eu logo logo também vou estar...”, pensei. E eu ouvi Nietzsche rir de mim. Era o sorriso mais perfeito que eu já tinha visto. Era a prova que eu precisava pra continuar puxando assunto. Mas depois de quase ter me matado, ela só disse um tímido “Obrigada”, e voltou a olhar para aquela parede... De novo. Quê? De novo? Eu fiquei muito intrigado com ela. Tinha alguma coisa muito esquisita com ela. Se fosse qualquer outro cara, tudo bem, eu entenderia se ela desse “um pé” e ignorasse, mas eu? É impossível resistir... Eu sou incrível demais pra você me dar um pé.  Devia só estar fazendo charme, sim, era isso. Ela me queria, eu podia sentir isso no ar, e eu até admirei ela por um instante, devia estar fazendo um esforço tremendo pra não me beijar ali mesmo. “Overkill é meu álbum favorito deles”, continuei como se nós já estivéssemos conversando há muito tempo. Agora sim, ela teria de me dar uma resposta decente. E logo ela começou a virar a cabeça, mais uma descarga de adrenalina, eu devia estar com minhas pupilas do tamanho de bolas de gude, e provavelmente estava tremendo. Mas ela só me fitou, e dessa vez não parou de olhar. Eu falei alguma coisa errada? Tinha cheetos nos meus dentes? Era outra banda na camiseta dela? Não, não – chequei os meus dentes – e não. Não fazia a mínima idéia de que atitude tomar. Não sabia qual tinha sido o erro. Eu me senti corar enquanto ela me encarava. Tinha a sensação de estar na frente de um estádio de futebol lotado de pessoas em silêncio e me encarando.
   Por sorte Consuela conseguiu me salvar. Ela viu, ainda por detrás do monitor, tudo que se passava ali. Então, quando ela viu que eu já tinha sofrido o suficiente, ela se levantou e veio até mim. Pronto, fui deportado. Vão me proibir até de pensar nos Estados Unidos. Eu cheguei tão perto de L.A... Quase lá!
   A mexicana parou na minha frente e falou:
_Ela não fala inglês, menino.
_Sério? – respondi.
_Sim, ela não entende você, menino, desculpa, devia ter te contado antes – disse a senhora. Eu estava a ponto de rir do sotaque dela, mas lembrei que o meu não devia ser muito melhor.
  Logo que Consuela voltou pro seu computador eu levantei, acenei levemente com a cabeça pra garota japonesa – que continuou a olhar a parede e não pareceu ver meu gesto. E voltei pro sofá vermelho de onde eu nunca deveria ter saído. Era o sofá mais distante daquele banco onde ela estava, mas ainda dava pra ficar olhando pra ela, e ela só perceberia se olhasse diretamente para mim. Comecei a ler, pra ver se me acalmava, não deu nada certo, eu lia duas palavras e tornava a encará-la. Fato é que li umas cinco páginas sem realmente entender coisa alguma. Não que fosse culpa do Nietzsche, era culpa daquela menina que continuava a ser bonita daquele jeito. Era quase tão bonita quanto eu.
   Eu parei de ler, porque uns dez minutos depois de ter ido pro outro sofá, e Consuela deu pra menina um celular. Ué, não sabia dessa, será que isso era parte do procedimento padrão deles? Eu já não tinha passado por uma entrevista suficientemente constrangedora? Todos os menores iriam receber ligações? Até aqueles dois garotinhos gêmeos? Não faz muito sentido, mas esses americanos não são uns bons exemplos de “pessoas que fazem sentido”, não depois de alguns aviões e prédios caindo... Eu não os culpo, todo cuidado é pouco, mas mesmo assim, ligar pros menores perguntando se esses eram terroristas não parecia uma coisa muito útil.
   Me perdi nesse raciocínio por um tempo, e quando voltei a prestar atenção no que ocorria naquela sala, eu vi a menina com os olhos vermelhos, e pela primeira vez expressando alguma emoção. Mas não que isso fosse bom sinal, se aquele rosto, sem nenhuma expressão já quase me parava o coração, o rosto dela a ponto de chorar fazia meu mundo desabar. Aquela carinha de choro era ao mesmo tempo a coisa mais linda e a coisa mais triste que eu já tinha presenciado. Ela desligou o telefone e desabou. Ela chorou igual uma criança. Ela soluçava e estava inconsolável, lembrou-me aquela garotinha do filme “Monstros S.A.”. Aquela cena me cortou o coração, mas, como eu não sabia dizer “relaxa ai, pô, isso ai passa” em japonês, eu continuei com a minha cara de bunda, fazendo de conta, pra variar, que eu não ligava. Deve ter dado certo, porque logo depois que ela desligou e chorou um pouco, a mexicana foi lá pegar o telefone, deu também uns tapinhas no ombro da menina. Que apesar de chorar, não fazia nenhum barulho, muito pelo contrário, continuava em silêncio e tentava não chamar atenção. Era a pessoa mais linda que eu já tinha conhecido. Ok, não. Essa pessoa sou eu, tudo bem, agora eu exagerei. Tudo bem que ela era linda, e se vestia bem, mas “ser mais” que eu é exagero.
  Fiquei naquela sala mais uns dez minutos, vendo a pobre garota soluçar, e aos poucos ir se acalmando, e imaginando o motivo de tanto choro. Que será que disseram pra ela? Será que vai pra Tihuana? Consuela se levantou da mesa e chamou meu nome. Disse que era pra colocar a minha mochila, pois teríamos de ir para a área de embarque do meu vôo, pois em cerca de meia hora, meu avião iria decolar, e como menor desacompanhado, eu tinha de ser o primeiro a embarcar. Peguei minhas coisas e dei uma última olhada pra menina. Ela me olhou de relance, mas fingiu não ter ficado triste por ter deixado o homem da vida dela escapar. Consuela me chamou de novo, já da porta da sala, dizendo alguma coisa do tipo “Pare de babar e ande logo, cara!”. Ela não tinha reparado que não era eu quem estava babando. Olhei-a uma única vez mais, e então virei-me para a tal mexicana que me encarava com uma expressão desgostosa. Ela era baixinha e redondinha, parecia mesmo uma vovó.
   Logo que nos afastamos da sala de menores eu me senti tentado a perguntar quem era a menina, e, é claro, perguntar o motivo de tanto choro por causa de uma ligação telefônica. E a mexicana, como toda boa mulher, começou a matraquear com todo fôlego que tinha, e com aquele inglês esquisito que tinha:
_A menina da sala é japonesa, veio passar as férias com os tios, que moram em Nova Iorque. Agora ela tinha que voltar pro Japão, o único problema é que não tem vôo hoje pro Japão.
_Até ai – eu disse – um dia a mais longe dos pais não mata, pelo contrário, te deixar um dia a mais vivo – nós dois rimos.
_O problema – recomeçou ela- é que não tem vôo amanha, nem amanhã, aliás, acabaram de dizer pra ela que não vai ter vôo a semana toda, e que não é certeza que tenha vôo na semana que vem. E já faz um mês que ela está ai.
_Um mês? Ela ta aí faz um mês? E porque não volta pros tios em Nova Iorque?
_Eles viajaram para a Europa. Parece que tem uma empresa ou algo do tipo lá.
_Entendo... Mas como ela come? Onde dorme? – eu devo ter feito umas setenta perguntas pra ela.
E ela, com calma, começou a responder:
_ Sim, está ai faz um mês, a companhia aérea paga tudo. Hotel, comida, e algumas outras coisas que ela precisa, lavanderia, por exemplo. Mas mesmo assim, não deve ser fácil pra ela. Sozinha num país estrangeiro, sem falar inglês, sem ter com quem conversar, e todo dia receber a mesma noticia. Ela é forte, eu mesma não conseguiria-.
   É tudo pago? Eu não teria problemas. Sozinho e sem conversar com ninguém? Isso é quase um sonho. Imagine eu, um mês longe dos meus pais. Sem aquele monte de gente me torrando o saco. Não sei porque ela chora tanto, eles até lavam a roupa dela.
  Eu teria dito isso pra Consuela, mas isso acabaria com a imagem de bom moço que eu tinha que ter pra não acabar deportado pra Cancun. Então eu fingi que estava triste.
_Isso é triste, ela parece uma menina boazinha.
_E é, não reclamou uma vez sequer, mas ela já não está mais agüentando – disse ela.
_É verdade, eu não agüentaria uma semana – eu sei mentir bem, isso é verdade. Mas não sabia que era bom assim... Cheguei a me convencer de que ficaria triste na situação da menina japonesa.
   Infelizmente esse não era o meu caso. O meu vôo sairia em vinte e cinco minutos, e eu estava cruzando os corredores daquele aeroporto, acompanhado da minha fiel escudeira, a mexicana Consuela. Íamos rápido por entre os saguões e corredores bem iluminados daquele aeroporto. Passamos por vários terminais de embarque. Conferi minha passagem, precisava chegar ao terminal quarenta e um, estávamos no trinta e três. Tranqüilo, vai ser tudo tranqüilo... Continuamos caminhando, ainda num ritmo acelerado. Eu, como menor desacompanhado, tinha que ser o primeiro a entrar no avião, como se fosse um retardado, assim eu entro primeiro e eles colocam o babador em mim... Que seja, pelo menos é só pedir e eu ganho outro cookie. Chegamos ao bendito quarenta e um. E olha que legal, o vôo iria atrasar.
   Tudo por causa do piloto, que não estava muito afim de voar. Disse que primeiro tinham que consertar a porta de seu banheiro particular. Palhaço... E ainda assim ele era o palhaço que iria me tirar do chão por seis horas, então era melhor que consertassem logo aquele banheiro, já que o piloto queria assim. Não quero morrer por causa de alguma coisa que o piloto comeu e não caiu bem. Imaginem “Avião cai porque piloto estava na fila do banheiro para passageiros comuns”, não... Não é bem assim que eu quero morrer.
   Tinha um balcão no saguão quarenta e um, então eu e Consuela nos dirigimos a ele. Era um balcão de informações, no momento, mas era inicialmente onde eles pegavam suas passagens, olhavam pra tua cara, e aí decidiam se você voava ou se tinha muita cara de terrorista pra isso. O cara do balcão era um homem negro de mais ou menos um e oitenta e cinco de altura, e ele trajava um uniforme diferente de Consuela, era uma paletó azul marinho, com a gravata vermelha e a camisa branca, tinha um lenço vermelho que parecia ter sido cuidadosamente dobrado e colocado no bolso do peito do paletó pela mãe dele. Logo que chegamos o cara começou a falar com ar superior e entediado. Ele devia ser o príncipe do saguão quarenta e um.
_O piloto se recusa a decolar sem que seu banheiro privativo esteja disponível. Nós teremos um atraso de mais ou menos uma hora. E esse garoto – olhou pra mim pela primeira vez desde que começou a falar – é o menor, certo?
   Não é que eu seja um cara violento nem nada, mas aquele sujeito me dava nos nervos. Todo metidinho a poderoso, eu devia enfiar um cabo de vassoura nele.
 _Sim, ele é o menor, por quê? – respondeu-lhe minha fiel mexicana, com um tom que mostrava que não era somente eu que me incomodava com a presença daquele sujeito. Willis era o nome que mostrava no crachá.
_Nada demais – disse Willis com ar desinteressado – é tudo do procedimento padrão.
   Puta que o pariu, ele deve achar que eu sou terrorista, ou então que tenho drogas enfiadas na bunda, era tudo que faltava, eu tento ir pra Los Angeles e enfiam uma câmera no meu rabo.
_Porque ainda estão de pé na minha frente? – recomeçou nosso príncipe – sentem ali naquele banco enquanto eu não chamo vocês para embarcar, ok?
   Então ele apontou para um banco, era logo atrás do balcão, assim ele não tirava o olho de mim. Mas, diferente do balcão que ficava de frente para o saguão, nosso banco ficava de frente para uma janela, uma grande janela que ia do chão ao teto daquele saguão, devia ter uns cinco metros de janela de cima abaixo, e ela substituía a parede. Ou seja, eu tinha uma visão de metade da pista de pouso, do avião que eu iria usar e de mais uns três.
_Fiquem aqui, e só levantem se for extremamente necessário, ok?
_Senhor, sim senhor! – respondi.
_Está certo – respondeu Consuela com seu sotaque. Por um momento eu pensei no porque de pessoas com sotaque tão forte trabalharem exatamente naquilo, sabe, num emprego onde tudo que se tem que fazer é falar. Mas eu gostava dela, era uma vovó mexicana bem tranqüila.
  Então eu comecei a observar aquele cara do balcão de informações, ele realmente devia pensar que era superior, não foi apenas comigo que ele usou aquele tom, ele falava com todo mundo daquele jeito, como se fosse o próprio Obama. Então ele derrubou uma caneta, e na primeira tentativa de pega-la chutou pra debaixo do meu banco, eu peguei a caneta, e enquanto ele vinha andando em minha direção reparei que ele estava com a braguilha da calça aberta, e que saia uma boa parte de sua cueca por ali. Era uma cueca verde de patinhos amarelos, e era impossível não reparar naquilo, pois com suas calças azuis, fazia aquilo quase brilhar, aposto que não fui o primeiro a reparar, e com certeza não seria eu quem avisaria da calça dele. E era, pra todo caso, uma bela cena, ele com aquela cara de tacho, de quem grita que é rico e tem um iphone, e ainda assim com as cuecas de fora. Já não se fazem esnobes como antigamente.
   Depois que ele voltou pro balcão, olhei para Consuela, ela estava pegando no sono. A idade chega, né? Ela estava com a cabeça pendendo pra frente, de um jeito muito esquisito, nada natural, acho que com a idade o corpo deve mudar bastante pra ela se sentir confortável com aquela posição. E eu vi que se ela continuasse naquela posição iria se babar toda, mas quem sou eu para acordar aquela pobre senhora, tão prestativa, e que me acompanhava de tão bom grado? Só o cara que tinha pago pra ela me acompanhar poderia fazer aquilo, e não acho que ele realmente esteja afim de acordá-la. E além do mais, eu simpatizava com ela, apesar do jeito doce, ela tinha cara de vovô que fazia bolo e depois ia treinar boxe e correr uma maratona. Era a vovó Clint Eastwood. Falava o suficiente, e se eu não comesse meus vegetais provavelmente ia tomar um tiro. E eu já tinha até memorizado o nome dela.
   Deixei a velhinha dormir, e guardei o livro na mochila, já que estava até essa hora estava socado no bolso do meu casaco. O livro estava meio amassado, provavelmente aquele bigodudo tinha pago o preço por não me ajudar, e além do mais, aposto que ele nada tinha a dizer sobre atraso de aviões e negros que não colocam a cueca dentro da calça.
  Então, depois de guardar o livro, lembrei-me de que tinha uma janela do tamanho de um trem na minha frente, alguma coisa pra prestar atenção... Pessoas, sempre elas. Dava pra ver todo mundo trabalhando lá embaixo, nos aviões. Devia ter uns cinqüenta caras trabalhando no avião em que eu iria voar. E eram todos parecidos, de capacete branco, colete alaranjado com duas listras verticais verdes fluorescentes, de calça jeans e botas. A maioria tinha uma barriga protuberante e barba por fazer, eram homens do trabalho, provavelmente não sabiam fazer outra coisa se não trabalhar e tomar cerveja.
   Tinha um grupo encarregado das malas. As malas vinham em containers brancos com o logotipo da empresa pintado neles. Eram puxados por um carrinho de aeroporto até próximo do avião, onde tinham esteiras. Essas esteiras levavam os containers, um por um até uma espécie de elevador, que nivelava com a entrada de cargas do elevador, e então tinha outra esteira que levavam eles pro fundo do avião, onde provavelmente alguém ia procurar alguns relógios e computadores.
   Tinha também outra turma, cuidando do reabastecimento do avião. O faziam usando uma grande mangueira amarela – que devia ser grande o suficiente pra passar uma pessoa por dentro. Eles colocavam a mangueira em algum lugar embaixo da asa, ai tinha um cara que apertava alguns botões, e logo depois ficavam conversando, tinha uns dez caras fazendo isso, aposto que dava pra fazer usando só três.
   Uns outros levando comida pra dentro do avião, outros checando os pneus, e ainda tinham alguns só pra andar de um lado pro outro sem fazer nada, usando quadriciclos vermelhos e coletinhos alaranjados. Era uma grande confusão arrumada, fiquei hipnotizado por uns quarenta minutos nisso, tentando ver exatamente quem era quem, e tudo que tinha que fazer. Até dei nomes pra eles. Tinha o Joe, o Jack, Nick, Greg, Chris, Lou, John, Bob, entre alguns outros. E eu sabia exatamente quem era quem. Enquanto isso Consuela chegava a roncar do meu lado.
   Perguntei para Willis se aquilo tudo ainda demoraria muito, e eles disse que agora o problema era na cozinha do avião – ótimo – e que agora teríamos de esperar mais meia hora. Que legal, eu realmente gostava daquele aeroporto, não estava com pressa de sair dali.
   E lá fora todos os caras de colete já tinham feito tudo que era preciso no avião, e a maioria tinha ido num carrinho esquisito pro outro lado da janela, e recomeçaram a trabalhar no avião do lado do meu. Menos Henry e Charles, que estavam sentados numa caixa de madeira, e fumavam cigarros enquanto conversavam. Provavelmente falavam de futebol, dinheiro, sobre as esposas... Ou então, eles poderiam ser atores e poetas, só esperando o sucesso chegar, já vi essa história antes.
   Logo a meia hora tinha se passado, e finalmente o cara das cuecas pra fora veio me chamar, e enquanto acordava a vovó ali do lado, eu notei que ele finalmente tinha tentado colocar a cueca pra dentro, mas ainda dava pra ver um pedaço que ficou preso no zíper. E finalmente depois de uma hora e meia, nós poderíamos embarcar – eu e os passageiros, a vovó fica. Consuela tava acordada, e deu pro Willis os meus documentos e as passagens, enquanto íamos até o balcão. Ele passou um leitor de código de barras na passagem e nos liberou. Consuela mandou que eu a seguisse novamente, e eu fiz exatamente aquilo que ela mandou.
   Fomos andando até um corredor de aspecto esquisito, ai me dei conta que era, na verdade, não um corredor, mas uma plataforma. E essa plataforma tinha sido erguida pelo caminhão que Henry tinha estacionado. Ainda bem que ele era bom motorista. Enquanto isso, as pessoas que estavam jogadas nas cadeiras do saguão começaram a se levantar, de modo que pareciam zumbis com passagens aéreas, e eu só escutava o barulhinho do leitor de código de barras, cada vez que lia uma passagem.
   Consuela entregou meus documentos, se despediu e virou as costas, e eu reparei que ela mancava da perna direita. Logo apareceu uma aeromoça boazuda – daquelas que aparecem nos filmes pornôs não que eu saiba exatamente como elas são, é que um amigo meu me contou – e pediu meus documentos e falou que eu parecia educado e sério demais pra ser um menor desacompanhado. Eu concordei. Levou-me pro meu lugar, e começou aquele discurso sobre como usar a máscara de gás – que ela disse ser oxigênio, mas eu aposto que era gás mostarda, sabe como é né? Melhor te matar antes do avião cair.  E ai depois falou aquela frase que faz os tarados terem ereção “Por favor, apertem seu cinto de segurança durante a decolagem”, é, agora eu entendo, estou apenas no meu segundo vôo, e já sei porque ninguém presta atenção naquela besteira toda. E outra, duvido que se fosse pro avião cair, deixar meu cinto de segurança ajustado iria me salvar, aliás, se fosse pro avião cair, eu preferia ter ficado olhando o Henry fumar sentado naquela caixa.
   _Senhor, poderia guardar sua mochila no bagageiro que se encontra logo acima da sua cabeça?- disse a aeromoça.
_Claro! Só me deixe pegar meu livro – respondi.
_ Tudo bem, pegue seu livro. Nossa, você é realmente um garoto legal, até lê livros, devia poder andar desacompanhado sempre – ela devia entender das coisas, e se não entendia, pelo menos ficava ótima naquele uniforme.
_É verdade, eu deveria – respondi já com o livro em punho.
   Ela mesma pegou a mochila e a guardou. O bagageiro se fechou com um “click”. Ela se despediu, e disse que estava “a toda disposição”... Aham... Espero que esteja mesmo.
   Abri o livro e procurei por alguma coisa do tipo “Como lidar com medos de altura”...
     Talvez Nietzsche tivesse alguma coisa pra falar sobre medos irracionais...nao que eu os tenha.


segunda-feira, 8 de abril de 2013

O tempo se arrasta e eu não faço parte dele.

É muita babaquice viver querendo fazer alguma coisa, não? Eu me pergunto isso todo dia que acordo cedo pra ir ver o mundo. E sinceramente, todo dia eu tenho uma resposta diferente. Não é questão de fazer ou não alguma coisa, é a questão daquele tédio maldito de não querer fazer nada, e ver o mundo se despedaçando. Não que isso seja em parte alguma minha culpa, não que no fundo eu sinta um sentimento lindo por todos os cachorrinhos e gatinhos e mendigos que vejo na rua, mas não fazer nada é, geralmente, a melhor opção pra quem queria poder fazer alguma coisa.

Não, eles não merecem que seja feita alguma coisa, qualquer coisa, não por eles... mas eu? Talvez - não é certeza- mas talvez eu seja digno de fazer alguma coisa por mim mesmo. Egoísmo? até agora foi a única coisa que sobrou de todos os babacas que falam "temos que mudar as estruturas desse sistema que nos oprime desde que nascemos". A minha experiência com babacas é aumentada como se o espelho fosse uma lente de aumento do mundo todo. E cada dia, mesmo parando de olhar pro espelho, sempre me aparecem novas faces de pessoas "que querem fazer algo".

Esses dias, eu não sei de onde brotou, mas apareceu um sujeito esquisito na minha frente, tinha os cabelos enrolados (crespos mesmo) e eles eram compridos...me lembrou o Slash (um babaca é igual a outro babaca... quase matemática). Só que esse louco aí tava com um livro do Foucault - Microfísicas do Poder - com a capa amarela e amassada...tsc tsc tsc... ele veio falar comigo, estendendo o braço magrelo pra me comprimentar... Só porque viu que eu tinha um livro na mão. Ai, tem vezes que eu queria ter o direito de ter uma estrela da morte, ou a kombi do Scooby-Doo... ai sei lá... eles param de falar comigo. Esse pobre diabo, que estava com uma camiseta do Che Guevara ("ai ai... que clichê isso ai" eu escuto os garotos da USP falando), e puxou assunto sobre meu livro...com a camiseta larga demais tentando esconder a própria magreza e um discurso que - assim de repente - virou marxista. Eu nunca li Foucault, mas um passarinho gordo me contou que ele não curtia muito Marx...Mas ele se mostrou animado com o "debate de metrô", e por algum motivo eu não o mandei calar a boca. Ele disse que não gostava de filosofia, que filosofia era especulação... mas que nunca iria mudar o mundo...
_Ótimo- eu falei pra ele- talvez seja isso mesmo ... mas você quer fazer o que, cara?
_Eu quero que o homem saia dessa luta de classes que é prejudicial à ele.
_Como isso, companheiro?
_Fazendo organizações locais... e blablabla... eu parei de ouvir as asneiras (talvez fosse algo útil, e eu seja o inútil que não saiba ouvir porque "não quer" alguma coisa).
_Que legal tua proposta, mas e depois ?

E ele se animava... se ele não parecesse uma criança de sete anos com um livro que nao sabe ler na mão, eu talvez tivesse perguntado se ele curtia ir na paulista beber com os socialistas de plantão. Durou onze estações, até que ele desceu, e falou "Você tem que tentar fazer alguma coisa... sabe, sair dessa versão única da história do mundo que você tem!"... Tanta garra, tanta força de vontade... se eu der uma guitarra aposto que Sweet Chil o'mine sai sozinha...Guns n Roses é um lixo.

E esse não foi o último dos babacas que pularam na minha frente de sopetão e disseram "Não contavam com a mais-valia!" ... E esse foi a segunda geração...já tem barba, já leu a tradição filosófica toda (queria eu ter feito isso), e depois de tudo isso, se formou na faculdade e agora dá aula de filosofia...É aí que eu penso que devia fazer "alguma coisa"... E que filosofia talvez seja perda de tempo... Ouuu, eu posso pensar que na boca desses caras ela seja perda de tempo. Que na mão desses caras ela vire papel higiênico e sirva pra limpar a bunda de gente que cresceu com uma vidinha mamão com açúcar. Mas como criticar a "burguesia" é muito da moda, eu paro com isso.

Esse babaca-chapolin-evoluído é o cara que apareceu na sala e também viu o mesmo livro na minha mão - o mesmo que o Slash viu. E ele tinha lido aquele livro, e pensou que poderia encaixar citações dele no meio da aula... e que assim nós iríamos virar super-amigos e sair andando, rumo ao por do sol, enquanto Jesse e James - junto com o Miau - estariam decolando na velocidade da luz. E ele foi muito insistente... e depois ainda perguntava ... "Não é mesmo?" e apontava pra mim... e eu só fazia um sinal de "positivo" com a cabeça... e via ele se desdobrando pra poder colocar uma/duas/sete citações a mais no discurso dele... Ele queria fazer alguma coisa... Um por um... e ele iria mudar o mundo... ele ainda tá tentando (e vocês pensando que a barba dele, que tem duas mechas puxadas e enroladas pra baixo, com umas cracas grudadas só servia pra dizer que é filósofo). Ele veio puxar papo no fim da aula... eu queria ir prum canto mais quieto, e ler um pouco daquele livro (toda vez que eu abria ele aparecia algum filósofo...que nem lâmpada mágica). Mas ele começou tranquilo... querendo fazer o papo engrenar, eu devia dar uma chance? Será que se o papo, quando engrenasse, me traria alguma coisa produtiva? Depois de um minuto ele encaixou mais uma citação do livro... eu parei de ouvir daí.... me disseram que ele ficou vinte minutos do meu lado...eu nem reparei, que pena!

Ok, mas em que isso ajuda numa divagação? Em tudo (exatamente porque não ajuda em nada). Esse é o nada do mundo que quer fazer alguma coisa, que pensa que pode mudar o mundo... e são esses caras que me fazem olhar pro lado, pro outro, atravessar a rua, pegar a galinha e voltar, e nunca tentar fazer nada de bom pro mundo - a não ser que ter algum efeito positivo pro mundo seja efeito colateral de ter tentado fazer alguma coisa pra mim mesmo (eu tenho janta - raridade - e um cara não tem que tirar tripa de galinha dos pneus, entende?).

E mesmo assim, eu vejo que isso não é certo... eu nem devia estar aqui, eu não me encaixo (ou então me encaixei tão bem nesse quebra cabeça que fica apertado demais. Mas não me parece algo útil ver os caras "fazendo alguma revolução" na Av. Paulista, e nem ter vontade de dizer pra eles que é perda de tempo. Talvez seja essa a coisa que eu pudesse fazer, não? Contar pros caras que eles tão perdendo tempo. E que eles deviam pegar uma cadeira de praia, um pouco de paçoca, e sentar na calçada, esperando a expansão do Sol engolir nosso planeta...Mas eles não vão.

...E sabe porque? É que eu não te contei, eu não sou o egoísta da história. Eu sou o cara que já sacou que não pode fazer nada, e que tentar mudar o mundo, e fazer ele convergir para algum ponto inicial é egoísmo. Sentar na cadeira de praia que tem um buraco na bunda, e comer canja de galinha é muito menos egoísta que sair dizendo que temos que "fazer pólos regionais que tenham economia auto-sustentável"...Quem faz isso é: ou egoísta (estúpido), ou vive de mau-caratismo... e por saber que fazer isso é puro egoísmo, faz com mais vontade ainda.

E eu olho pro relógio e descubro que nem escrever passa o tempo. O tempo começa a se arrastar cada vez mais, e por isso mesmo eu começo a gostar cada vez mais de ficar olhando da varanda o mundo acabar. Acabo amando aquela sala na qual sou enclausurado - com todos os macaquinhos fazendo palhaçada e rindo das fórmulas que dizem que A =  v2-v1 / t2-t1 ....eles não entendem essa coisa simples, e ainda assim querem fazer alguma coisa... e quanto mais eu olho, menos o tempo passa, e mais eu aprendo a sufocar meu desespero com um sorriso e uma ironia que sempre sai em forma de verso....Mas talvez seja bacaninha da minha parte eu te contar que o tempo passa nesse slow-motion... e eu assisto de fora. Eu não fico em slow-motion... nem acelero, eu só assisto. Talvez eles façam "alguma coisa", mas eu? Eu não vou fazer nada, eles nem merecem que eu diga que eles estão perdendo tempo. Nem merecem que eu assista... mas eu vivo de tédio...porque beber eu não quero, nem posso, e nem consigo....

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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

De todas as coisas que voce aprende enquanto olha o mundo.

Sabe, depois de muito olhar em volta, descobri que nao conseguiria consertar o mundo ( nao falo de mim, falo de todos voltados para um bem maior). Certo que isso nunca foi uma aspiracao real... foi mais um talvez que eu ainda tinha deixado em aberto. Um desses, dos quais eu conseguiria deixar reservado pra mais tarde. Igual batatas fritas que voce soh come depois do hamburguer.

Ai me vem algum espertinho e me diz "muitos ja disseram que o mundo nunca iria mudar", "Todos nos, que aqui estamos, sabemos que o mundo nao vai mudar!", ou entao "O mundo nao vai mudar? hahaha gosto dele assim"...muitos falam coisas assim, mas talvez, esses ai, nunca tenham visto o tamanho da babaquice das pessoas, nunca tenham entendido, no fundo, o que seria nunca mudar. Pois eh, amigao, voce que prega que o mundo eh um lixo, que o mundo eh uma porcaria, entende que voce eh, tambe, parte desse mundo? Entende com a profundidade aceitavel o que seria nunca mudar o mundo? Sera? mesmo? Essa seria a unica proposta desse texto... ver se voce entende que o mundo eh uma porcaria, e que voce nunca vai mudar esse mundo, e quero ver se voce entendetambem a gravidade de nao mudar o mundo. Eu realmente duvido que eu mesmo tenha ja entendido a gravidade dessa questao, que eh, pra mim, a mais horrivel de se pensar, e ainda assim... a mais divertida.

E se voce for daqueles que diz que o mundo "Tem salvacao", "Eh bom, voce que nao ve ele direito", "Soh precisa que cada um coloque um bloco pra construir ele melhor"... ou qualquer outra coisa desse tipo... cara... eu quero de verdade saber onde voce arranjou esses cogumelos... talvez eu goste deles mais que de pink floyd. Porra... se o mundo fosse feito pra ser um lugar melhor, nos humanos, ja o teriamos feito melhor. Somos uma raca que dominou o planeta em menos de 20.000 anos... nem os dinossauros foram tao longe...Se fosse pro mundo ser melhor... esses ultimos 2013 anos depois de cristo ja teriam bastado, nao?Cristo era um idiota que acreditava no mundo melhor...mas o sangue dele era vinho, o cara passou a vida toda bebado, nao conta.. Entao, se voce for um desses, metidos a bonzinhos, eu tenho nojo de voce, voce eh o lixo desse planeta. Mas, pode ter a segunda hipotese, a de que voce, babaca bonzinho, que cre num mundo melhor (de qualquer maneira) tenha realmente entendido a questao de nao mudar o mundo nunca, e soh por isso diz que acredita num mundo melhor, ai as pessoas te deixam em paz (convencao social sabe... "se quer um mundo melhor, eu nao preciso de matar, eu sempre mato quem nao quer um mundo melhor"- diz uma pessoa que luta pelo mundo melhor).

Que diabos, esse texto nao tem nexo. Quem precisa de nexo, temos um mundo melhor! que? pera...ahh, lembrei, eu sou do lado que querem um mundo ruim... nao! Hmmm, eu to um pouco confuso. Deixa eu reler tudo que escrevi... ai eu continuo...

Entaaao... retomando, como esse texto nao tem nexo, vou ver se posso dar algum sentido nele citando um exemplo, talvez seja o exemplo mais evidente do mundo...aos olhos de quem sabe ver, claro. Eh tao facil ver tudo que vou falar, que eh soh ir em alguma festa, ou balada, ou qualquer lugar que tenha pessoas que sejam estranhas umas as outras. Eh... essa ideia toda de seducao, interacao, esfregacao, pegacao... todos os fatos que levem essas pessoas (nao todas juntas... bem... na maioria das vezes nao) ao coito!

Sim, o melhor jeito de ver o quanto o mundo eh idiota, e sem futuro, eh ver o jeito das pessoas se relacionarem umas com as outras. Ja pararam pra reparar no tanto de idiotices que as pessoas fazem simplesmente pra se entregarem umas as outras como cachorros no cio? Como um bando de animais selvagens, e irracionais. Nao? Se nunca, eu sugiro que facam isso... eh muito...muito..."muito oque, genio?" Muito engracado e tragico ao mesmo tempo. Eh isso que eh. O jeito que os "machos" cortejam as "femeas"..eh totalmentew hilario. Juro, eh mais engracado que Os simpsons. Aquele papinho furado. Coisas do tipo "Tah meio cheio aqui, vamos pro meu carro", ou "Seus olhos sao tao lindos que eu quero que voce abra as pernas". Nao sei se eh bem esse o texto, mas eh assim que soa pra mim. E ai as femeas respondem "Ai, nao vamos com pressa, sabe, sou boa moca, e seu carro eh qual desses?" ou "Nossa, voce eh tao engracado que eu ja estou de pernas abertas". E nunca muda, eh sempre o mesmo joguinho. Sempre. E ai os machos fazem o coito com as femeas, e saem (machos e femeas) atras de mais pares pra satisfazerem a propria incapacidade de lidarem com eles proprios. E vivem nesse ciclo, eternamente. Morrem nesse ciclo. Acordam de manha pensando em quem querem tracar. Entram no transporte publico, e a primeira coisa que tentam achar eh algum par que esteja a disposicao (daqui alguns anos teremos uma lei que vai mudar tudo, ela vai te obrigar a usar uma luz na testa... e essa luz vai ter duas cores verde - se estiver livre- e vermelho -se estiver ocupado- e ai ninguem vai ter que procurar mais). Resumindo essa baboseira toda, as pessoas vivem agindo dessa maneira idiota, e se orgulhando disso. Pobre de mim, que descobri que isso eh idiotice, e agora nao posso mais viver feliz com minha luz verde na testa.

O mundo eh cheio de idiotices, que me provam que ele nao eh, e nunca vai ser um lugar bom (parte I). E tais idiotices sao tao idiotas que me mostram que esse mundo nem merece ser mudado (parte II). E mesmo se ele merecesse, ou eu quisesse, eu nao iria mudar nada, o mundo nao quer mudar (parte III). E se mudasse, seria provavelmente pra pior - descendo a ladeira, sabe (parte IV). Se mudasse pra melhor, seria uma merda, nos nao merecemos um mundo melhor (parte V, e ultima da ideia hahaha, os cogumelos devem ser azuis). E enquanto eu estou olhando o mundo acabar, como a crianca que sou, nao sei se dou risada das pobres criaturas, ou se choro de pena.  Pena deles, pelo fato de que nunca vao se tocar, pobres almas perdidas, que ainda vagam pelo mundo, pensando que descobriram a felicidade nos jatos de esperma. Pobres adultos que nao sabem nada sobre a felicidade. E pobres das poucas criancas que eu ja vi por ai, tambem indecisas, entre o choro e a risada.

Ta, mas e o nexo?
R: Nao preciso de nexo, eu conheci o ranger vermelho.
E quem liga pro mundo?
R:Cala a boca, eu nao vou te emprestar meu giz de cera.
E porque o texto nao tem acento, nem cedilha, e um monte de H perdido?
R: Eu nao quero acento, cedilha eh feio. E eu gosto da letra H...

CANSEI DESSA ENTREVISTA!

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Será que se eu pular, eu chego do outro lado?


Eu não sei qual ideia eu tenho quando levanto da cama de manhã. Não sei qual pensamento se abate sobre mim quando a porra do despertador toca, e eu deixo que ele me acorde. Eu ainda não consegui entender o motivo maior, aquela coisa me me segura, e não me faz jogar o despertador na parede. Eu sou maior que ele, e jogá-lo na parede resolveria todos os meus problemas. Seriam manhãs inteiras de sono, e dias inteiros livre, sem ter que correr para um lado e para o outro. Ou então, semanas e meses cheios do silêncio que se faz quando não escuto aquele "BEEEP BEEEP BEEEP". Talvez eu não possa fazer isso, mas eu bem que queria. Não consigo imaginar  - pra variar - de onde tirei a ideia de viajar pra fora do país, ainda mais ir para os Estados Unidos, aqueles caras são paranóicos, ficaram com medo até do meu ipod (ipod se escreve junto). Depois de tantos documentos, tantos lugares pra ir, tantas coisas pra provar que eu não sou um psicopata...eu to quase sentando e vendo o mundo acabar com um toddynho na mão (álcool faz mal pra saúde, ouviram crianças?). Mas de qualquer forma, uma estadia na Califórnia não pode ser desprezada. O estado americano que recebe mulheres do mundo todo... meu deus, uma chuva de mulheres. Mas ainda vou pensar se vale à pena.

Fato é que o maldito despertador teve de fazer hoje, novamente, seu trabalho. Me acordou às 07:15 (uma hora e quarenta e cinco minutos a mais que o normal, ainda assim, cedo demais). Tive que ir para uma parte da seleção para a obtenção do visto. Uma coisa bem de retardado - ou de americano, eu trato os dois como sinônimos. Estava marcado para ás 10:45, ou seja, tempo de sobra. Levantei, fiz a cafeteira trabalhar. Se o despertador me acorda, eu acordo a cafeteira, e ela acorda meu intestino. E enquanto o café não estava pronto, eu fui me trocar, joguei as cuecas sujas num canto - desses bem escondidos, para eu pode esquecer dessa cueca -, coloquei cuecas limpas, passei desodorante, pois todos os psicopatas são fedorentos que não usam desodorante, então peguei um jeans surrado, um par de meias decentes, e coloquei, logo em seguida calçando meu all star. Não é por ser fashion, ou querer andar na moda, eu só tenho aquele par de pisantes, eu gosto deles. E escolhi entre umas das minhas poucas camisetas. Procurei a que me fizesse ficar menos parecido com um psicopata. A camiseta do Pantera escrita "Cowboys From Hell" não iria me ajudar muito, a camiseta do Iron Maiden escrita "Death On The Road" ... não era bem o apropriado, pensei. Fiquei com a camiseta surrada do Ac/Dc, e puta que o pariu, era a mais surrada. Mas ainda assim, uma boa banda, uma boa camiseta, e ainda me fazia parecer apenas um moleque que ouve rock, gostei disso. Nenhum menino que ouve rock e usa all star é considerado psicopata sanguinário (ou pedófilo, traficante, terrorista, etc). Estava enfim vestido como sempre. Isso me deixa mais confortável e confiante, saber que eu estou parecido como sempre, e que as pessoas vão me olhar do jeito que sempre olham. Com isso eu sei lidar. Logo que terminei de me vestir, meu café estava pronto, servi uma boa quantidade em uma caneca, e coloquei um pouco de açúcar - não muito, muito açúcar afeta sua masculinidade. Passei manteiga num pão, não muita, muita manteiga afeta sua masculinidade. E comi bem devagar. Pois tem o ditado que diz "Comer depressa afeta sua masculinidade" ... não é isso, mas é quase isso, e eu passei a mensagem, e passar a mensagem é o importante. Terminei de comer e fui arrumar minhas coisas. Chaves, ipod,  (junto...se escreve junto!), celular, cartão de crédito, um livro pelo qual nunca paguei, nem eu, e nem ninguém (Numa Fria - Bukowski... você só é um macho alpha quando lê Bukowski, nunca vi um macho alpha que não tivesse lido Bukowski). E claro, peguei aquele tufo de documentos, era muita coisa, devia ter ali umas cem folhas com autorizações, fotos, documentos, cópias de coisas inúteis, pornografia com cavalos... não... essas eu preferi deixar em casa. Eram sete e quarenta e cinco.

De qualquer forma, eu estava pronto pra sair de casa, e ir para mais um lugar que iria me levar ao sonho californiano. Logo seria eu e três belas garotas, uma mexicana, uma loira e uma ruiva, todas de biquíni e besuntadas em óleo, se esfregando em mim com vontade, e dizendo o quanto eu era lindo e perfeito, e que tinham esperado a vida toda por um homem como eu. E me fazendo propostas de casamento, tudo para não me deixar voltar. Me dariam um filho, uma casa e um greencard, apenas para continuarem com meu corpo entre o corpo delas todas. Mas eu tinha que por minha cabeça no lugar, e eu ainda estava em casa, e tinha uma caminhada de vinte minutos até o metrô. Destranquei o portão, saí, e tranquei-o novamente, certificando-me de que ele estava realmente trancado... nunca se sabe, e eu não confio em fechaduras, cadeados e coisas do tipo. Me parece o tipo de coisa que os caras fabricam para não trancarem, e aí eles vendem os cadeados para as prisões, que vão segurar os caras que teriam arrombado minha casa, e ai esses cadeados - os da prisão - seriam ruins, e aí os presos fugiriam, e aí a tal empresa de cadeados poderia vender cadeados para os ricos poderem se proteger, e fariam também cofres imensos para eles protegerem o dinheiro deles, mas esses seriam também propositalmente ruins, essa coisa é só um ciclo vicioso, e os únicos cadeados bons, são aqueles que protegem a fábrica de cadeados, e aqueles que são também usados pra trancar as casas dos caras que vendem cadeados, eles não curtem o caos que provocam, e eu não sei porque diabos eu estou falando disso.

De qualquer forma, meu portão parecia bem trancado, e eu espero não entrar nesse ciclo dos cadeados. Comecei a andar até o metrô. Precisava de música, calma, alta, e que me fizesse dar uma viajada. Comfortably Numb foi a escolhida - não do dia, é mais um costume... coloco ela como primeira música, ai posso sempre começar meu dia ouvindo ela. Ajuda de verdade, aquele cara... Gilmour? Sim, Gilmour, ele sabe fazer uns solos, tenho que tomar cuidado pra não chorar enquanto escuto aquela música, mas não consigo não cantar. Um dia aprendo a tocar guitarra só pra tirar essa música. A caminhada até o metrô era bem tediosa, não tinha muita coisa pra se admirar, eram subidas e descidas longas de monótonas, e os pontos de referência são sempre fáceis de se ver. Tinha um mercado na esquina, e um muro com um grafite bonito que foi estragado por uma pichação que dizia "Mais respeito" e "Eu picho, você pinta, vamo ver quem tem mais tinta" , tinha também a loja de chocolates, e a praça... mas num todo, era só um monte de retas, e pode-se ver toda a inclinação da rua, de tão retas que são. O ser humano sempre teve essa maldita tendencia de deixar o mundo todo reto. Até a sua coluna eles querem que seja reta. Logo acabou Comfortably Numb, e a música que começava era Cold Shot, dum texano metido a besta que enfiou seu helicóptero na neve pra esfriar a cabeça, dizem que ele não tinha um cheiro muito bom, mas não lembro da guitarra dele ter nariz. Passaram-se mais algumas músicas, e mais uns minutos daquela caminhada chata e incessante até eu avistar o metrô. Eu ainda tenho a fixa ideia de que todos no metrô são frangos que entram no caminhão que os leva pro abate, e fazem isso de livre e espontânea vontade. De qualquer forma, entrei na estação do mesmo modo que faço todo dia. Tudo parecia normal. Os mendigos, os cachorros, os policias no canto - sempre o mesmo canto. E os frangos, dúzias deles, centenas deles, milhares deles...segundo estimativas, milhões deles. Me dirigi à bilheteria, tateei meus bolsos à procura do dinheiro pras passagens, que ótimo, tinha esquecido o dinheiro em casa, e já eram oito e três... maldito despertador, sempre fazendo seu trabalho.

Voltei correndo pra casa, claro. Nem notei todas aquelas pessoas que me olhavam de soslaio. "Olhe que homem louco! Correndo por aí como se o mundo fosse acabar..olha, milho cócócó". Cheguei em casa em doze minutos, e eu corri o máximo que pude, peguei a grana das passagens (de ida e volta, não ia querer correr até em casa pra pegar a grana de novo... deve ser uns vinte quilômetros até o lugar da entrevista, então correr vinte quilômetros pra pegar o dinheiro da passagem pra voltar pra casa, e voltar correndo até o metrô pra poder voltar pra casa não me parecia uma opção agradável). Voltei correndo para o metrô, eu já estava ofegante no meio do caminho, mas me forcei a continuar. Meu peito queimava quando eu cheguei novamente no metrô, e eu estava suando feito um porco, que ótimo. Treze minutos na volta. Puta que o pariu, eu tinha perdido nessa brincadeira no mínimo vinte e cinco minutos, já era oito e meia, e pra variar, eu estava começando a ficar paranóico com isso. Entrei na fila pra comprar as passagens, sempre tinha reparado no quanto as pessoas são esquisitas ao máximo no metrô, nunca pensei em ver um homem vestido de amarelo, verde, com um tênis laranja e um boné vermelho da Ferrari e ainda por cima usando um óculos de mosca. Não antes de começar a andar de metrô. Comprei as duas passagens. Três reais cada. Não acho caro pelo tanto de diversão que eu tenho lá dentro - do metrô... vagões e essas coisas. Mas os óculos de mosca sempre reclamam. Entrei na fila pra poder passar na catraca... o ser humano gosta tanto de retas que toda vez que se junta forma uma. Uma reta formada por humanos que gostam de retas, gosto de pensar por esse lado. Coloquei o bilhete naquele buraquinho - de colocar o bilhete, largue de pensar besteiras, tem coisas mais interessantes para enfiar no cú. Eu sempre me perguntei pra onde diabo vão todos os bilhetes que colocamos la dentro. Será que eles usam como combustível? Ou então moem toda aquela porra e colocam no hambúrguer do McDonald's... ou pior (melhor talvez), só reciclem aquela coisa, e fazem você pagar mil e trezentas vezes pelo mesmo bilhete. Não sei, não sei nem como cabe tantos bilhetes num buraco de catraca só. Deve ter algum portal ali...só pode!

Gosto de descer as escadas rolantes, sempre penso que sou um ser superior descendo à Terra para glorificar toda a raça humana com minha incrível sabedoria. Gosto de olhar o decote das mulheres que estão abaixo de mim. E de olhar as pernas das que estão acima. Gosto de encarar os que estão no contra-fluxo. E gosto de tocar guitarra imaginária enquanto estou na escada rolante. Devo Ser algum astro do rock numa descida apoteótica, com minha guitarra de ouro e pele de lagarto, e minha roupa cheia de cristais, descendo no meio do palco enquanto o público me ama. Gosto disso, pena que dura só trinta segundos essa tal descida. Logo que desci o trem já estava parando, e abrindo aquelas portas mecânicas que sempre me lembram algum filme de terror. Entrei - como sempre - na ante penúltima porta do primeiro vagão. Ela sempre me deixava exatamente na boca da escada rolante da estação que eu queria. O trem não estava lotado, mas tinha gente o suficiente pra ocupar todos os bancos. Até mesmo os preferenciais, merda. Sentar nos bancos preferenciais de metrôs e ônibus era igual a sentar no chão, ou comer de boca aberta. Todos sempre te olham com uma cara de nojo, ainda que não exista nenhuma lei que diga que é proibido, o mundo é louco, mas eu preferia ver o mundo louco sentado num banco azul de deficientes. Lembro-me de uma vez que me fiz de retardado mental para poder sentar num daqueles bancos sem nenhum olhar incriminador. Fiquei fazendo careta e puxando assunto com todo mundo, até me babei uma hora...não sei se eles caíram, um cara tão lindo como eu nunca poderia ser retardado, mas de qualquer forma, muitas pessoas riram (me incluo nessa, mas nunca mais vou repetir, já que uma senhora se ofereceu pra limpar a saliva que tinha escorrido pelo meu queixo, e ela passou a mão em muito mais lugares que meu queixo, todo o resto da viagem). Eu estava na linha vermelha, ou seja, a menos civilizada de todas - contando com o fato de eu estar num vagão cheio de frangos, civilidade não é algo à ser cobrado.O metrô estava rápido. Ou pelo menos na média de velocidade, naquela na qual ele sempre tem de estar, mas como quase nunca consegue manter essa velocidade, quando consegue, isso é como se ele estivesse rápido. A viagem na linha vermelha durou "apenas" meia hora. Ou seja, já eram nove horas. Me restava apenas mais uma hora para chegar na tal entrevista. Malditos americanos, e malditos os seus horários de merda.

Fiz a conversão para a linha azul. Essa é ligeiramente mais civilizada. As pessoas são um pouco mais educadas, e os trens fedem um pouco menos. Talvez pelo fato de serem mais novos, ou pelo fato de que essa linha seja quase toda subterrânea (enquanto a vermelha tem quase todo seu trajeto feito debaixo do Sol). Não sei ao certo, mas fato é que nessa linha eu me sinto um pouco menos desconfortável. É que eu tenho tendência a suar frio naquela chacoalhação toda. Muitas vezes me esforço pra não vomitar pela janela do vagão, porém na linha azul essa vontade diminui.  Mesmo assim, ainda parecem frangos. E eu tenho uma mania chata de contar quantas pessoas entram e saem do vagão a cada estação. Mas não dessa vez, eu tinha alguma coisa decente pra ler. Ler no metrô é difícil, além de ficar enjoado naquele diabo de lugar, é sempre apertado, sempre cheio, então tenho que fazer um esforço extra pra conseguir. Mas vale à pena, sempre vale. Andei umas seis estações, ou quatro, não lembro. Desci na estação Vila Mariana. Um saco de lugar, conheço muito mal aquele pedaço, mas de qualquer forma, tinha o endereço, então a única coisa que tinha a fazer era seguir caminho até aquele prédio. Sempre me imagino como um Indiana Jones nessas horas. Um aventureiro explorador, desbravando os perigos da cidade. Me defendendo com unhas, dentes e ipod dos batedores de carteira, usuários de crack e velhas que ficam no seu caminho não importa a sua direção. E sempre tem os checkpoints, onde eu salvo meu progresso - eu to falando dos pontos de táxi, postos policiais, botecos e qualquer outro lugar onde tenha gente que pareça conhecer o lugar, aí eu posso perguntar se estou na direção certa. E mesmo que muitas vezes eles me sacaneiem, eu ainda consigo me manter mais ou menos na direção certa.

O caminho foi tedioso, muito tedioso. Eu estava na calçada ao lado de uma avenida de quatro faixas, e seguindo sozinho pela calçada. Me senti como na cena de algum filme de velho oeste, quando o cara durão sai sozinho pelo acostamento de uma estrada no meio do deserto, com uma espingarda, um cantil, uma faca e uma pistola no coldre, só que minhas armas são diferentes, elas não atiram - que droga, não?. Mas logo eu avistei um monte de gente. E eu não estava exatamente perto, é que devia ter umas cem pessoas atulhadas na entrada daquele prédio. "Cheguei", pensei.  E realmente eu tinha chegado, só não esperava ver tanta gente lá.

Só que quando cheguei lá, ás nove e quarenta e cinco, descobri que meu horário era, na verdade, dez e quarenta e cinco, e não dez horas. E descobri isso do pior jeito, passando vergonha na frente de todo mundo, que novidade. Eu cheguei, e os instrutores que ficam na entrada do prédio estavam gritando "Quem está agendado para às dez horas, por favor, entrem nessa fila prioritária. Celulares, ipods, chaves, objetos cortantes e isqueiros não são permitidos!!" . Que ótimo, eu tinha todos esses objetos. Mas como tem gente esperta no mundo, tinham uns guarda-volumes ali perto (ao lado do prédio para ser exato), Cobravam dez reais a cada hora por um armário no qual mal cabia uma mochila, mas fazer oque? Era isso, ou tacar minhas coisas todas numa vala. Que seja, saquei o cartão de crédito e fui até a tiazinha, que ficava nos fundos do estacionamento/guarda-volumes, passei os dez reais. Ela tinha uma verruga meio esverdeada no nariz, que parecia uma bala de menta com pelos. Ela me conduziu até o armário numero 13 - se eu fosse um cara com superstições, iria começar a chorar nesse exato momento. Beleza, problema solucionado. Entrei correndo na fila, e esperei os seguranças me revistarem. Passaram o detector de metais em mim. Ele não apitou, mas os seguranças riram, e disseram que eu tinha habilidade em ser revistado. Na minha mente eu dei um murro no meio daquele nariz pontudo e torto dele. Lá dentro do prédio, outra fila, mas ali tinha umas ajudantes, umas meninas legais, vinham falar com você, e te mostrar quais documentos você teria de apresentar, e a ordem de cada um deles. Ela tirou uma folha daquele bolo de documentos, e por sorte eu tinha deixado a pornografia com cavalos em casa, aquela folha estaria junto com ela. Examinou a folha, e disse-me com a voz mais amigável que conseguiu "Senhor, seu horário é só daqui quarenta e cinco minutos". Puta que o pariu, pra variar, eu comecei tudo errado. Me dirigi a saída, e enquanto eu saía todo mundo ria de mim. Claro que tentando disfarçar, mas imaginem só, aquele louco que vive correndo e suado passando mais um vexame. Era tudo que eles queriam. Que seja, tinha quarenta e cinco minutos pra ficar torrando no Sol, não poderia querer outra coisa.

Nesse momento comecei a notar o motivo de todo mundo olhar pra mim e rir. Comecei a entender o motivo de ser - pra variar - a gozação das pessoas. Notei que todos ali eram bonitos, e estavam bem vestidos. Notei que todos pareciam felizes e ricos. E tinham roupas caras, sapatos caros, óculos caros. E tinham cheiro de perfume caro, eles tinham aspecto de serem caros. Tinham cara de serem as pessoas que limpam o rabo com notas de dólar. E eu estava mal vestido, suado, e ainda por cima tinha passado vexame. Aquele era o tipo de gente que não passava vexame. Os caras ali estavam usando ternos bonitos demais para passarem vexame. Tinham os cabelos arrumados demais para serem capazes de fazerem qualquer coisa vergonhosa. E as mulheres ali tinham vestidos, cabelos loiros, e classe. Até aquelas lindas crianças loiras dos olhos azuis tinham um toque de superioridade - eram o tipo de criança que aparece em comercial, mas que é esnobe até com os próprios brinquedos, aquelas crianças que tinham bicicletas de marcha.  Eu estava no meio de gente superior. Pessoas superiores nunca erram. E eu usava um jeans surrado, e um all star batido. Foi a primeira vez que senti vergonha de ser eu mesmo em algum lugar. A primeira vez que a minha roupa me deixou indignado. E eu tentava esconder meus sapatos, e tentava secar o suor, mas nada adiantava. Eu continuava sendo a piada. Tive que pedir pra tiazinha da verruga passar mais dez reais, pelo tempo do armário, já que iria demorar mais que uma hora até ter saído daquele inferno. O tempo foi passando devagar, e eu fui perdendo a graça para os classudos do lugar. Tinham entrado umas nuvens na frente do Sol, e graças a Goku eu parei de suar. Mas ainda fiquei com aquela sensação de estar pegajoso, e não me sentia muito bem no meio daquele povo que não sua e nem fede.

Os quarenta e cinco minutos se passaram, e os organizadores começaram a gritar "Todos que tem entrevista marcada para as dez horas e quarenta e cinco minutos, por favor, entrem nessa fila.  Celulares, ipods, chaves, objetos cortantes e isqueiros não são permitidos!". Beleza, dessa vez eu sabia meu horário. Sem vexame, eu espero. Entrei de novo, e estava esperando pra ser revistado pelos seguranças, com aqueles detectores de metais que mais parecem aspiradores de pó, daqueles que são portáteis. Quando chegou minha vez, o mesmo segurança que tinha me revistado antes foi encarregado de me revistar de novo. Que ótimo.

_E aí cara, é tua hora mesmo? - falou com um tom bem irônico
_É, acho que fiz uma confusão, não? - ser um cara legal, e deixar passar, é a chave pro sucesso.
_Qualquer coisa, a saída é ali, acho que você já viu. - todos que ouviram isso riram, corei na hora. E na minha mente, eu já tinha arrancado dois dentes dele com um soco, e colocado esses dentes dentro dos olhos dele. Mas eu prefiro esperar pelas minhas garotas bronzeadas, e embora arrancar-lhe uns dentes me pareça muito justo, tomar uns tiros por isso não me parece divertido.

Lá dentro eles olharam os documentos, fizeram uns rabiscos numas folhas que eu tinha impresso (nenhum cavalo), e me mandaram subir uma escada até o terceiro andar, onde seria feita a tal entrevista. Era uma escada pintada de verde limão. Os caras podiam entender de documentos, mas de cores... eu duvido. Quando cheguei no terceiro andar, vi que era só uma ampla sala com pequenas cabines onde os solicitantes eram entrevistados por pessoas atrás de vidros. As pessoas detrás dos vidros falavam por microfones similares aos usados por atendentes de cinema. O vidro era grosso, mas estava extremamente limpo. E tinha uma câmera posicionada num pequeno tripé, logo atrás do vidro, umas dessas Canon que os jovens usam pra tirar fotos e postar no facebook. Fui chamado pra cabine nº 16. Onde uma atendente surpreendentemente bonita me pediu pra sentar. Meu deus, que olhos incríveis, eram os olhos mais verdes e profundos que eu já tinha visto. E mesmo não estando muito interessada em mim, sempre que me olhava, eu sentia como se ela estivesse olhando minha alma, e lendo meus pensamentos. E aqueles cabelos castanhos, quase louros de tão claros que eram, lhe caíam perfeitamente, e o seu rosto tinha um contorno delicado, com uma pele delicada, e lábios carnudos, tinha um piercing no nariz que mostrava que ela não era totalmente divina. E a voz dela combinava perfeitamente com seu rosto, era a voz mais musical que eu já tinha ouvido. Ela era perfeita. E naquele instante, eu a amei, e tudo que eu queria era poder levá-la pra casa. Tê-la pra mim, e foda-se todas as garotas bronzeadas da Califórnia. Mas ela não deu a mínima pra mim, nem sequer me olhou direito. Fez algumas perguntas sobre meu tempo de estadia, meu retorno, o quanto eu ganhava, minha intenções no país dela, e todas essas coisas. Então ela tirou minhas digitais numa maquininha na qual eu não tinha reparado, e tirou também uma foto com aquela câmera. Depois disso, disse-me que meu visto tinha sido aprovado, e que sairia na semana que vem. Me devolveu todos os documentos que tinha checado antes, e simplesmente chamou o próximo. Ela nem me disse tchau. Pelo menos eu iria ter as garotas da califórnia pra mim. Todas elas, com seus corpos esculturais, eu era um cara de sorte...

Saí daquele lugar infernal - mesmo abrigando um anjo, aquilo era um inferno. E me fui direto para o guarda-volumes. Peguei minhas coisas todas de volta, e joguei a chave do armário nº 13 no colo da velha verruguenta. Fui direto pro metrô, sem nem olhar pros lados. No ipod tocava alguma música do Iron Maiden, ou era Justin Bieber? Lady Gaga? Manowar? não lembro, não prestei muita atenção, mas a letra dizia "Ai meu deus, que coisa louca, estou apaixonado pela a aeromoça, ela mexeu com meu coração, por favor piloto pare esse avião!", deve ser Chico Buarque, só pode. Cheguei no metrô e dei graças à Goku novamente por ter comprado duas passagens, não parecia ter nenhum banco por perto.

Fui direto pro centro da cidade. Tinha que ir na imobiliária pagar meu aluguel. O centro era cheio de bancos, e se eu sacasse o dinheiro lá, não ia precisar ficar andando com dinheiro por ai. Fui num banco mais quieto, nem fila tinha. Meu dia estava começando a melhorar. O cartão não foi aceito da primeira vez... e eu demorei um pouco pra reparar que tinha colocado a senha errada. Coloquei a senha certa, saquei o dinheiro, soquei tudo no meu bolso, e fui - como sempre - para um bar, mas não pra beber, só precisava ir no banheiro contar o dinheiro, não gosto de fazer isso em público, e em São Paulo, é pedir pra ser assaltado. Ok, entrei no bar, fui pro banheiro. Tinha aquele cheiro familiar. Uma mistura de mijo com um leve toque amadeirado de vômito velho e merda escorrida, não estava tão ruim assim.Contei o dinheiro três vezes, e arrumei as notas de modo que ficasse no bolso da minha calça, mas não aparecesse. Saí do bar sem pagar nada, e ouvi o dono resmungando alguma coisa sobre "Bêbado filho da puta que é enxotado dos outros bares e vem vomitar no meu". Nada anormal. Tinha que ir no prédio da imobiliária pagar o maldito (ou bendito) aluguel, e assim eu teria onde morar por mais um mês.

No meio do caminho um cara esquisito meio que brota do nada, põe a mão no meu ombro e pergunta:

_Onde tem um itaú? - ele era um pouco mais baixo que eu, estava vestindo uma camisa branca, calça social preta e uns sapatos esquisitos. Tinha um rosto bem normal, mas tinha os cabelos desgrenhados, me lembrou um pônei velho pelo jeito de andar - ainda que eu nunca tenha visto um pônei velho.
_Não tenho certeza, mas acho que na rua de trás deve ter um. - respondi tentando parecer o mais seco possível.
_Tem certeza? - tornou a perguntar
_Acabei de dizer que não... - ele não se tocou, e nem ia se tocar.
_Você mora aqui? - "caralho, um tarado, é hoje que eu morro", pensei.
_Não. - eu estava com um tom suficientemente mal educado pra ele se tocar.
_Onde você mora? - "É, eu vou morrer hoje"
_Longe.
_Muito longe? - nesse momento ele colocou a mão no bolso, pensei que fosse tirar uma arma e me dar um tiro ali mesmo, quase saí correndo. Era um celular branco, por sorte.
_Sim, bem longe.
_Tá indo pra onde agora? - eu tive que parar, encará-lo, fiz o olhar mais insano que consegui, engrossei e subi o tom da minha voz, e disse com - oque eu pensei ser - uma calma assustadora...
_Isso de alguma maneira te interessa?
_Não mas é que...
_Então cale a tua boca, e saia daqui, seu palhaço. - eu estava quase tremendo de medo. Puta que o pariu, é hoje que eu morro.
_Mas é que a moça me disse... eu... - e nesse momento ele estava com as duas mão segurando o celular, ele recuou, e eu vi o medo nos olhos daquele homem. Ele colou o celular no peito e abaixou a cabeça, e completou - eu só tava perguntando.

Aí o pônei velho simplesmente se virou, atravessou a rua, e começou a andar o mais rápido que pôde. Ele estava basicamente paralelo à mim, e eu o encarei por um tempo. Ele se forçava a olhar pro chão, mas de tempos em tempos virava a cabeça para me olhar, e cada vez que ele notava que eu o estava encarando tornava a olhar para o chão e acelerar o passo. Eu me senti por um momento o Chuck Norris. Nem tive que bater no cara pra ele sair correndo. Eu devo ser muito macho mesmo. Incrível.

_É cada louco que eu encontro - falei pra ninguém em especial, e ninguém me ouviu. Continuei andando até chegar a imobiliária. A parte mais legal de andar no centro não é estar no centro da maior cidade brasileira. É ver o quanto as pessoas são babacas no centro da maior cidade brasileira. Tem uns gritando, outros tocando violão, mais uns fazendo mágica, tem os pastores,  os fiéis, os casais, os mendigos, é tudo muito incrível. E todos são muito babacas. Agora eu entendo de verdade o motivo do medo que as pessoas sentem em relação a São Paulo.

 O Sol ainda estava alto. Era mais ou menos uma da tarde. Quando cheguei na imobiliária eu estava empapado de suor, ofegante e precisando urgentemente de um copo d'agua. Tomei um copo d'agua no bebedouro, e fui no banheiro lavar a cara antes de subir para onde era a sala na qual eu pagava o aluguel. Só quando olhei no espelho reparei que estava usando fones de ouvido, só que não estava mais ouvindo música. Eu devo ter alguns problemas, só pode. Guardei os fone no bolso e olhei meu celular. Nenhuma mensagem, ótimo. Sequei a cara e o pescoço com papel toalha, não foi uma ideia muito inteligente, ele se encharcou todo e se rasgou, espalhando pedacinhos de papel no meu cabelo e na minha orelha. Com um pouco de esforço eu consegui tirar todos os pedaços de mim. Subi pro escritório do cara que recebia os aluguéis, o cara era um gordo branquelo, que tinha cabelo só na lateral da cabeça, e por isso penteava para o centro, pra ver se escondia a careca. Ele falhou miseravelmente nessa tarefa. Ele usava uma camisa que parecia ser inicialmente ser feita de papel crepom azul claro, mas que estava agora azul marinho por causa do suor. Ele estava mais nojento que eu, disso eu tenho certeza. Dei-lhe o dinheiro e peguei o certificado de pagamento do aluguel. Por um mês eu ainda teria onde morar. Me despedi dele com um aceno de cabeça. Só quando eu saí percebi que não tinha falado sequer uma palavra com ele, coitado. Logo que eu entrei ele começou a conversar comigo, por um momento eu podia jurar que tinha respondido, talvez pelo fato dele não calar a boca. Ele falava por nós dois. Saí olhando pro céu. Não parecia que ia chover, pelo contrário, o Sol estava bem forte lá no alto.

Passei num boteco e tirei uma nota de dez do bolso. Eu tinha sacado um dinheiro a mais, justamente pra isso. Tomei uma lata de coca-cola, e comi um salgado. Tava morrendo de fome. Tomei a coca-cola e saí ás pressas do bar, eu mal podia esperar pra chegar em casa. E lá estava eu voltando pro metrô, um astro do rock descendo as escadas rolantes enquanto procurava nos meus bolsos os últimos cinco reais me que restavam. Fui pra bilheteria, que estava vazia, muito menos gente usa o metrô ás duas da tarde. Comprei meu bilhete e guardei os dois reais que me sobraram. Estação São Bento, fiquei esperando o metrô bem debaixo da placa que dizia "Sentido Jabaquara". Chegou o trem, e ele estava vazio, ótimo, eu precisava sentar. Minha lombar já estava doendo. Peguei o livro do Bukowski que estava na minha cintura desde que tinha pego minhas coisas naquele armarinho. Abrí-o em um conto. "Dor de vagabundo era o conto... não preciso dizer que foi um ótimo conto, preciso? Falava de um cara que era um poeta muito ruim, e não falava nada com nada, mas as pessoas o adoravam, Henry Chinaski, pra variar, não gostava dele e estava bebendo, e no final do conto ele acaba num bar, bebendo com uma mulher, que criativo. Fui para o próximo conto, "Não exatamente Bernadette", e depois mais um ... e eu estava no quarto conto quando reparei que tinha passado a estação Sé - onde eu tinha que ter voltado pra linha dos frangos vermelhos... ou linha vermelha dos frangos...ok, esquece. Estação Parada inglesa? Puta que o pariu, nunca tinha estado naquela estação antes, tinha pego o trem sentido Tucuruvi. ótimo dia. Desci, do  trem e fui imediatamente para o outro lado da estação, no sentido Jabaquara. Dessa vez, eu estava de verdade no sentido Jabaquara.

Logo que o trem chegou eu avistei um cara que não via a muito tempo, um colega de classe, um cara que sempre quis ser mais inteligente que eu, e nunca tinha conseguido. Diogo era o nome. Ele tinha uns dois metros, e era gordo, mas gordo pra valer... devia estar pesando uns cinquenta quilos... tão gordo que parecia que tinha dois pães no lugar onde deveriam ser bochechas. E ele nem tinha pescoço mais, ele parecia um dedão com cabelos. Ele ainda se vestia do mesmo jeito. Camisa polo com listras horizontais, que parecia que era justa por causa da enorme barriga, calças azuis de moletom, e um tênis de mola pra amenizar o impacto nos calcanhares e joelhos - eu não creio que o tênis ajudasse muito, uma dieta seria melhor. Ele me reconheceu, merda. Entrou no vagão junto comigo, e logo puxou assunto. Perguntou da minha vida, onde morava, se estava trabalhando... essas coisas todas, eu repetia as perguntas, e não prestava muita atenção nas respostas. A única pergunta que lhe fiz com real vontade foi quanto ao meu livro. Mostrei-lhe o livro, e perguntei se ele já tinha lido Bukowski, a resposta foi "Não tive a oportunidade". Depois disso, o papo morreu, e ele é o típico cara chato, só repete os assuntos, coisa de gordo isso. Logo ele me disse que tinha recém começado a fazer faculdade de filosofia. "Essa é a minha deixa", pensei. E então comecei a perguntar:

_De quais autores você gosta?
_Platão, Sócrates, Platão, Hegel, Marx, Kant...
_E Platão? Gosto de Platão, e você?
_Sim, eu gosto, e disse Platão...
_Não, não disse...
_Tudo bem, então.
_E Nietzsche? Já leu Nietzsche?
_Já, ele é legal.
_Claro que é, até Deus leu Nietzsche!!!
_Humm....- ele não entendeu, isso é natural...

Logo nós estávamos - como ele disse - discutindo de forma amigável. Ele queria me convencer do Marxismo. Ele é o pior marxista que eu conheço, bateu o recorde. O pior dos piores marxistas do mundo. Só eu tenho o costume de ler mar-chis-ta? Aí me vem a imagem de Karl Marx cantando uma marchinha de carnaval, usando uma máscara e tudo mais, cercado de mulheres semi-nuas. E a marchinha dele se chama "A Marxa com a Xuxa só para socialistas 5", mas ninguém precisava saber disso. Logo eu comecei a cortar o papo, disse pra ele que ele era ruim. E que era melhor ele ir estudar agronomia. Que se ele parasse de ler um pouco e começasse a pensar, talvez um dia ele conseguisse ser chapeiro no McDonald's. Ele ficou irritado comigo, com razão, eu acredito. Descemos os dois na Sé, e enquanto eu estava indo em direção  a escada rolante que faz a conversão para o sentido Inferno-Itaquera, ele foi pra saída. Ainda bem. Não merecia nem mais um segundo olhando aquele molequinho escroto, nem ouvindo a voz dele.

Encontrar ele fez eu me lembrar de uma boa época, ele ficava na sala, enquanto eu ia beber no banheiro da escola. Ou então matava aula pra ir beber. Ou então nem entrava na escola pra ficar vagabundeando na rua. Tirei aquele ano todo pra ser feliz, o ano que eu mais me diverti. Eu fui reprovado, é claro. Ele foi aprovado como o melhor aluno da sala. E, é claro, fez questão de me contar, mas quando ele me contou isso - numa festinha da sala -, eu estava tão bêbado, e tão enjoado, que por pouco não vomitei nos tênis de mola que ele usava. Ele sentia nojo de mim, mas tinha que tentar ser melhor... Pobre gordinho. "Diogordo" era como chamávamos ele, ou de Barney... ele parece o Barney. Eu nunca gostei de assistir Barney, sempre preferi os Teletons... não... Teletubbies... é Teletubbies.

Estava na plataforma onde se pegava o trem sentido Inferno-Itaquera. Fui pro fundo, pra variar, já que odeio pegar o trem no meio, e se eu embarcasse na frente, ele não iria me deixar onde eu queria. Penúltima porta do último vagão, foi para onde eu me dirigi. Quando eu cheguei lá tinha só umas quinze pessoas. E já eram quase três horas. Eu queria ir pra frente. Gosto de ser o primeiro a entrar no vagão. Passei na frente de uma tiazinha - crente, pela saia jeans e pelo cabelo comprido e amarrado num rabo de cavalo - devia ter os seus quarenta e cinco anos, e já era meio gorda. Quando passei na frente dela, ela falou alto, quase um grito:

_Isso, passa mesmo, me empurra, aproveita e se joga! - pobre crentelha, querendo me fazer passar vergonha.
_Mas eu só quero pular, ver se consigo chegar lá do outro lado! - e ri.
_Então vai logo, babaca! - tsc tsc tsc, não entendem.
_Se a senhora tirar a cara feia da minha frente eu vou - comecei -, mas antes eu preciso de espaço, senão eu não chego do outro lado num pulo só! - ri alto comigo, e dessa vez todos os outros que estavam perto riram comigo, menos um babacão de terno, que era calvo, e penteava os cabelos pro meio da cabeça (que nem o cara da imobiliária, aliás, eles devem ser irmãos, só pode!).

Logo o trem chegou - já era o sexto trem do dia, chega, né?. Quando fui entrar, o irmão do cara da imobiliária me deu uma ombrada, querendo me derrubar, ele quase caiu sozinho, então eu tive que comentar com ele:

_Se queria pular primeiro, era só falar, cara... eu não ia te impedir! - ri sozinho, de novo. Pelo olhar dele, eu vi que ele queria arrancar meu olho com uma colher, e enfiar na minha bunda.

Sentei no banco dos idosos, abri meu livro, e comecei a ler "O homem que adorava elevadores". Outro ótimo conto. Mulheres, bebida, sexo e um pouco de ironia, tava tudo ali. depois de ler esse conto eu só conseguia pensar no quanto um dia idiota conseguia ser ainda mais idiota. E quanto mais coisas você fazia, mais idiota ficava esse dia. Fui pra casa, tomei um banho, e fui dormir. Eram quatro meia. Tirei o despertador da tomada.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Pros que reclamam de má sorte...

Jim nunca gostou de carros, ou melhor, nunca teve a chance de gostar de carros. De motos ele gostava, mas os carros sempre o traíam. E não é pouca coisa... Jim já passou por mais incidentes envolvendo carros que aniversários. Nunca foi culpa dele, mas de certa fora, esse azar o acompanhava.

Sua primeira lembrança é a de um acidente de carro. Ele tinha quatro anos, e estava brincando no quintal de casa, na caixinha de areia dele, ele não saía daquela caixa de areia, parecia um gato.Quando um cara dentro de um carro azul marinho simplesmente capotou na frente de sua casa - ou pelo menos foi isso que Jim conseguiu ver. Ele não viu que o cara tinha atropelado uma moça no caminho. E também não viu que ele tinha tido uma briga com a mulher, e depois de ter batido nela, saiu pra beber e agora estava voltando pra casa com um buquê de flores. Mas de qualquer forma, não é a melhor lembrança pra se ter da infância.

Mas como tudo tende sempre a piorar para Jim, logo quando tinha acabado de completar sete anos, estava dentro do carro com seu tio, sua tia e um primo. Quando o carro pareceu virar uma sanfona, jogando Jim para um lado e pro outro, sucessivas vezes até o pobre garoto perder a consciência. Foi tudo que ele viu... mas não foi tudo que aconteceu, pra variar. Uma picape vermelha tinha entrado com força na lateral do carro preto que John - tio de Jim - dirigia. A picape vermelha tinha cruzado o sinal vermelho, e vinha com muita velocidade. E John teve o azar de estar passando no cruzamento errado, na hora errada - e com os passageiros errados. O carro vermelho capotou umas cinco vezes, segundo as testemunhas, enquanto o cara da picape não sofreu um único arranhão. Jim acordou pela primeira vez em um hospital. Sentia-se fraco, tonto e tinha a visão embaçada. Passou um dia inteiro inconsciente. Pelo menos ele acordou, o primo de Jim nunca teve essa oportunidade. Ele foi arremessado pela janela aberta, e em seguida esmagado pelo carro. Jim teve a sorte de não ter visto.

Passaram-se três anos sem acidentes, e Jim ainda não tinha um problema com carros nem nada, até gostava, mas apenas os de corrida, que não fossem azuis, nem vermelhos. Estava indo para a praia com seus pais - Mariah e Henry - no sedã prateado da família, quando o Henry, que estava bebendo cerveja desde de manhã, conseguiu atropelar uma velha que estava atravessando a estrada. Dessa vez Jim viu tudo, preferia não o ter feito, mas não tinha volta. O carro a tinha acertado no meio, e ela voou, quando Jim chegou perto, tudo que conseguiu ver foi sangue, muito sangue. Não sabia de onde vinha tanto sangue, a velha nem era grande, era só uma velha magrela e pequena, com um cabelo branco como a neve, e agora tingido de vermelho, que usava um poncho de lã azul e branco - era o tipo de velha que teria dado a Jim biscoitos e um copo de leite. Mas ainda assim, ela estava imóvel, e o sangue não parava de sair. Ela estava jogada numa posição estranha. O braço estava num ângulo que parecia doloroso. Jim queria continuar olhando, triste pela pobre senhora, mas ainda assim fascinado. Mariah levou Jim pro carro, enquanto Henry saía em disparada com o sedã que estava agora amassado. quando chegaram à praia não falaram nenhuma palavra sequer durante o dia todo. E quando chegou a noite, Mariah foi à cama de Jim conversar com ele. Disse-lhe que se alguém perguntasse, ele nunca tinha estado lá. E  que nunca tinha visto a pobre senhora. E que aquele amassado nunca tinha estado lá, também. Jim concordou com a cabeça, mas naquela noite não conseguiu dormir. Ficou pensando na cor rubra que tinha se apoderado dos cabelos cor-de-neve da pobre senhora que ele jamais soube o nome. E no poncho bonito dela, ele queria ter elogiado aquele poncho.

A frequência dos acidentes estava aumentando. Com onze anos, ele viu do banco da frente a mãe atropelar um homem. Estavam no mesmo sedã prateado. Era de dia, e eles estavam  na frente de um mercado movimentado. Mas podemos excluir a culpa de Mariah - dessa vez - aquele homem estava ensandecido correndo no meio da rua, e literalmente se atirou na frente do sedã em que estava Jim. De qualquer forma, dessa vez Jim viu de camarote o quanto o corpo humano era frágil perante um carro. E viu mais uma vez sua mãe chorar. Desceu do carro com pressa, com vontade de ver como estava aquele cara metido a fortão, que acha que pode parar um carro com os braços. Estava consciente, mas tinha uma fratura exposta na perna esquerda, no meio da canela, e estava com um corte na barriga, provocado pelo plástico dos faróis que se estilhaçaram com o impacto. Ele sobreviveu, é claro...mas sem aquela perna. E mais uma vez Jim não conseguiu dormir. Porém não se sentia culpado, não tinha nada que um garoto de onze anos pudesse fazer, só deitou, e ficou tentando imaginar o motivo que leva alguém a se atirar na frente de um carro.

Seis meses depois, estava voltando do enterro de um tio meio distante da família - que por coincidência - morreu também num acidente de carro. Quando Henry, ainda com os olhos turvos de tanto chorar pelo irmão, conseguiu meter aquele sedã prateado com força num muro. Jim estava dormindo no banco de trás, não tinha visto nada acontecer. Acordou com o impacto da própria cabeça no vidro do carro. Era o fim do sedã prateado, e de um dedo de Henry. E Jim começou a ter receio com carros... começou a ligar os fatos. Já tinha sofrido mais acidentes do que qualquer um da sua idade, e viu uns outros tantos... parecia que esse tipo de coisa o seguia. E não era totalmente mentira. O garoto tinha quase doze anos e sobreviveu a mais acidentes que os caras da Nascar, não era pra qualquer um...

Outro acidente marcante ele sofreu quando tinha quinze anos. Ele estava voltando de uma festa com os amigos, mais velhos, estavam todos bêbados, menos Jim, que não bebia, mas não podia dirigir. Eram cinco dentro do carro. Phill, o dono do carro, e motorista. Nathan, o bêbado chato. Robert, o metido a bonitão. E Finn, o engraçado da turma. Jim tava bem no meio do banco traseiro, sem cinto de segurança e cada vez mais preocupado com a imprudência dos amigos. Até que os maus pressentimentos se fizeram valer. Phill invadiu uma casa, quebrando a cerca, atravessando o gramado e só parou quando arrebentou a parede frontal da casa. Acabou com metade do carro na sala de estar de alguma família que estava dormindo. Foi uma confusão daquelas, mas nada incrível, a família acordando e correndo de uma lado pro outro. A cara daquela mulher, quando viu um carro na sala dela, foi impagável. Ninguém se feriu, e Jim, que tinha "previsto" o acontecido, já estava agarrado num banco naquela hora, sendo que foi o único que nem ao menos bateu a cabeça. Tiveram que pagar a fachada da casa, e reconstruíram a cerca, recolocaram tudo em seu devido lugar... tudo pra manter a polícia fora disso.

Até completar dezoito anos foi isso, Jim sofreu mais alguns acidentes. Ele geralmente não tinha nenhuma parcela de culpa, mas odiava entrar em carros. Outra coisa curiosa era o fato dele nunca ter se machucado com gravidade. Uns hematomas, uns arranhões, e certa vez quebrou um osso da mão, mas fora isso, nunca  se feriu com real gravidade nos acidentes. Diziam que ele tinha um anjo da guarda. Ele respondia sempre algo do tipo "Que anjo da guarda me põe em um acidente de carro a cada seis meses?". Todo mundo ria, ele não.

Como presente de aniversário, Jim ganhou de seu pai um carro. Ganhar um carro aos dezoito é o sonho de - quase - todos os jovens. Jim não queria o carro, mas de algum jeito foi convencido pelo pai. Henry disse-lhe que os acidentes aconteciam não por culpa dele, mas por culpa dos outros, e que como ele era uma pessoa atenta, nunca deixaria um acidente acontecer. Seu pai sempre conseguia convencê-lo. Aceitou o carro, e foi tirar a carteira de motorista. Ele dirigia incrivelmente bem para alguém que nunca tinha pego num volante. Tirou a carteira, e apesar de não gostar muito de ideia de ter que conduzir um carro por aí, admitiu sair com o carro de vez em quando. E a sensação de dirigir era ótima, a melhor que ele já tinha provado. Um misto de poder e liberdade... Ele, talvez, pudesse gostar daquilo.

Logo que saiu sua carteira, ele pediu pra levar o pai até o trabalho, e levou a mãe também pra fazer compras, e eles estava dirigindo cada vez melhor. Foi buscar o pai no trabalho, no mesmo dia. E foi buscar as roupas da mãe na tinturaria. Ele começou a gostar daquilo. Mas ainda ficava de certa forma receoso... e com razão, não é pra qualquer um passar a vida toda sofrendo inúmeros acidentes de carro, e ainda assim conseguir entrar em um... e ainda mais, dirigir um. Mas Jim estava se saindo bem.

Na semana seguinte teve um almoço, no domingo. Para celebrar o aniversário de vinte anos de casamento entre Henry e Mariah foi. Tudo aconteceu na casa de deles. Os parentes vieram de várias partes do estado, até aqueles que andavam meio afastados compareceram. Aproveitaram a data para se reaproximarem. E olhavam para Jim, agora um homem feito, e incrivelmente inteiro. Era de se espantar. A festa rolou bem, foi até tarde. Algumas discussões entre a família, nada de anormal. Mas logo já era hora de todo mundo ir embora. A despedida foi aquela coisa tradicionalmente chata... todo mundo dizendo que estava com saudade, e todo mundo marcando de se reencontrar, de fazer mais churrascos, de passarem o natal na casa de fulano... tudo o mesmo tédio de sempre. Quase todos tinham ido embora quando tio Charles disse que não tinha como ir embora, e que não podia dormir lá, tinha que acordar cedo pra trabalhar. Claramente Jim se ofereceu para levá-lo pra casa, era só uns 20km dali, nada demais. E eram dez da noite, a rua estaria vazia. Charles aceitou, claro. Como recusar a carona do sobrinho?

Logo saíram no carro de Henry, pois Jim tinha esquecido de abastecer o dele. Agora Henry tinha um sedã vermelho escuro, lindo. Com dois anos de uso... mas estava como se fosse novo, era a preciosidade de Henry. Charles, pra variar, puxou assunto:

_E aí, cara, você não tinha medo de carros, e essas paranóias? - começou
_Eu tinha, ou tenho, não sei direito...
_Mas você sempre teve um azar, hein, cara...
_Pois é, as coisas acontecem... mas nunca foi nada demais. E como você bem sabe, a culpa não foi minha.
_Em nenhum deles? só pode estar tirando com a minha cara, você deve ter alguma culpa no cartório!
_Olhe, tio, eu tô te dando carona, mas não abusa, tá?
_Oh, desculpa aí, cara... só estava descontraindo... Mas e aí, tá namorando?
_Não! - respondeu com tom de quem não queria mais conversa... seguiram calados pelo resto do caminho.

Jim reparou que o lado da cidade em que vivia Charles era meio vazio. E meio afastado. Nunca tinha ido a casa dele, era sempre ele que ia visitar, nunca o contrário. De qualquer forma, deixou o tio dele em casa, se despediu brevemente, e quando entrou no carro, ouviu da janela de seu tio:

_Cara, você tem que aprender a brincar... parece com a sua mãe! - Charles era um sacana.

Estava voltando pra casa quando decidiu parar pra comer alguma coisa, parou num McDonald's e fez seu pedido. Ficou impressionado com o fato de que as dez horas da noite de um domingo as pessoas ainda estivessem trabalhando em algum McDonald's. E ficou impressionado com o número de clientes... aquele lugar estava quase lotado. Fez seu pedido, e se dirigiu a uma das poucas mesas que encontrou vazias. Comendo calmamente, e pensando que mesmo estando num churrasco, a coisa que menos fez foi comer... isso é pros convidados. Comeu as batatas, e quando finalmente terminou, se sentiu bem, e calmo. Coisa que não sentia há alguns anos. Entrou no carro, e se dirigiu pra casa...

Viu um sinal vermelho, mas viu também que a rua estava deserta. Sempre soube que era perigoso parar nesse tipo de sinal, mas decidiu não dar sorte pro azar.

_É melhor eu parar, o carro nem é meu, e está no seguro - falou ele pro banco vazio ao lado. E logo que ele parou, um ônibus passou rasgando no cruzamento. Devia estar atrasado. Por pouco, muito pouco ele não sofreu outro acidente. O sinal ficou verde, e logo que ele começou a acelerar sentiu uma pancada na traseira de seu carro. Afundou a cabeça no volante, não perdeu a consciência, mas ficou ligeiramente tonto. Sentiu que tinha cortado o supercílio com o impacto.

_Ohhh merda! - gritou - tinha que acontecer comigo....

Saiu do carro cambaleando, e olhou ao redor, a rua estava vazia... que novidade. Foi o mais rápido que pode olhar o estrago que tinha feito no carro. O outro carro era uma picape velha, de um verde escuro e descascado. Ela tinha se afundado na traseira do carro. Quem dirigia era uma mulher - que novidade -, ela estava com a cabeça afundada no volante, e os braços de alguma forma abraçavam estavam presos ao volante. E o fato mais marcante era um caco de vidro verde enfiado no pescoço dela. Devia ser do tamanho de uma lente de óculos.

_Hora errada pra dar um gole no vinho, não? - comentou com a moça inconsciente.

O celular ainda estava no bolso, que milagre. Ligou para o primeiro número que consegui pensar. Olhou em volta enquanto o celular chamava o tal número. A rua não tinha uma viva alma. Quem atendeu foi a polícia. Uma mulher com voz mecânica e fria começou a falar:

_Alô? Central da polícia militar falando, como poderia lhe ajudar?
_Moça, sofri um acidente de carro, poderia mandar uma ambulância? Tem uma mulher ferida aqui!
_Qual seu nome, senhor?
_Jim... mas moça, mande a ambulância!
_Senhor, peço que não se desespere... Aonde você está?
_Eu estou no cruzamento da 5ª avenida com a 27ª rua...
_Vou transferir a sua ligação para o centro de emergências dos bombeiros, senhor, as suas informações estão anotadas.
_Moça, essa mulher tá morrendo! - desesperou-se - você pode mandar logo a ambulância?
_Senhor, você está me desacatando. Por favor, se acalme! -tentou apartar
_Mas, como eu posso me acalmar enquanto essa mulher está.... - parou de falar
_Senhor? .... Senhor? Você está aí, senhor?
_Esquece. Ela morreu, pra variar. Manda uma viatura que eu quero ir pra casa. - desligou.


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Braços, pernas, penas e cartas.

Esse é o quarto mês que vou usar a grana que ganho jogando cartas pra pagar o aluguel. Eu não posso reclamar de pagar o aluguel com "dinheiro de bar", mas não me sinto confortável, parece que estou roubando de alguém, ou tirando comida da boca de uma família inteira. Talvez eu esteja, mas, antes a boca deles que a minha. E os caras que sustentam família não deveriam andar no tipo de boteco que eu vou. Se estão lá, sabem da encrenca que vão encontrar - eu, e os caras piores -, então, tiro esse peso de cima de mim. Eles merecem perder a grana, e eu jogo suficientemente bem pra poder ganhar deles.

Eu nem sempre vivi assim, eu trabalhava antes, era um "bom sujeito", não ganhava bem, e tinha um desses empregos dos quais nunca ninguém sonha em ter, mas ainda assim, eu tinha um emprego, uma vida, uma rotina, e essas coisas de gente normal... eu odiava. Trabalhava numa grande gráfica, eu era o operador da impressora maior daquele lugar, meu trabalho se resumia em apertar oito botões, puxar uma alavanca e retirar os banners, panfletos e qualquer coisa que saísse daquela coisa, e ai levar para um outro cara empacotar e jogar num caminhão... Como eu disse, um "empreguinho" que não tem nenhum tipo de emoção, mas ainda assim, eu fiquei nele por um bom tempo - cinco anos, mais ou menos -, e mesmo assim, nunca consegui gostar de nada que fazia durante o dia.

Aquela rotina me fez um cara deprimido e irritado. Conhecer a miséria humana me deixou assim. Todo dia, para ir trabalhar eu andava de trem, o pior lugar do mundo é um trem lotado às seis da manhã. Eu sempre ri da comparação que ouvi um dia, de que um trem era igual aos caminhões que transportam frangos... Nunca achei engraçado, pois é a mais pura verdade. Se você já viu um caminhão de frangos, vai entender tudo que eu estou falando. Num trem, os olhares são iguais aos olhares dos frangos quando estão nos caminhões... vazios, cinzas, sem rumo ou esperança, brilho, ou qualquer coisa que não seja só a resignação, e a coisa mais triste é ver esse mar de olhos perdidos logo ao acordar. E logo que o trem lota, a semelhança aumenta ainda mais, todos espremidos e reclamando, até que o trem vira um mar de braços, pernas - talvez penas - e olhos vazios. Todos indo para os seus empreguinhos medianos, todos se odiando por nada, mas ainda assim, nenhum deles faz nada além de aceitar o próprio "destino". E eu fazia parte desses frangos... Mas não faço mais!

Chegou o dia que eu cansei, cheguei naquele gordo que eu chamava de chefe, e simplesmente derrubei-o com um soco na cara, arranquei-lhe três dentes. Fui processado, e perdi, claro... aquele cara tinha mais advogados que jogador de futebol. Levou meu carro, e ainda me fez pagar pelos dentes que tirei, e ele fez questão de ir nos dentistas mais caros que conseguiu achar... Mas eu não ligo, toda vez que o via eu comentava sobre como o sorriso dele estava lindo, e fazia questão de salientar a palavra "sorriso". Ele ficava uma fera, mas sabia que nenhum dinheiro no mundo iria mudar o fato de que eu tinha lhe arrancado os dentes, e colocado de volta!

Obviamente fui despedido, e então comecei a andar pelos botecos, no começo foi só pra passar o tempo, nada demais, beber, conhecer algumas das problemáticas de bar - quase sempre bonitas e problemáticas - e talvez arranjar alguma boa briga com algum sujeito que tivesse dignidade de me dar um soco com força. E foi numa dessas noites que descobri que levava jeito para jogar cartas. Numa roda de jogo numa mesa engordurada e meio torta, e com gente que fede a cachaça e suor, no canto mais afastado e cheio de fumaça daquele bar  perto do mercado. Me chamaram pra jogar, e eu logo estava descolando uma grana com eles... no começo era só pra pagar a bebida, mas logo eu estava lucrando mais até que quando trabalhava, ainda que não fosse tão honesto, dinheiro é dinheiro,  e eu estava precisando dele.

Talvez o mais interessante de frequentar os mesmos bares, seja ver as mesmas pessoas, porém, diferente dos trens, nos bares você sempre vê as pessoas que possuem aquele brilho no olhar, aquelas que não devem sair durante o dia. O tipo de pessoa que não anda de trem é o tipo de pessoa que frequenta os bares mais sujos que você pode encontrar, e é o tipo de pessoa mais incrível também...Encontrei desde executivos de grandes empresas - algumas eram clientes daquele gordo - até mesmo algumas figuras que eram da televisão, mas que depois de velhos, foram jogados fora como lixo, assim como qualquer coisa que seja usada pelas pessoas...

Uma dessas pessoas era Suzane. A primeira vez que vi Suzane foi numa mesa de jogo, em uma noite na qual eu não estava lucrando bem. Ela se sentou, colocou a garrafa de cerveja na mesa, jogou vinte paus no centro da mesa, e tomou o baralho da minha mão. Embaralhou e distribuiu com destreza todas aquelas cartas. Na hora eu soube que havia nela algo especial, e eu teria de conhece-la. Lembro-me que ela era uma ótima jogadora, deu-me a melhor partida da minha vida... e por sorte - muito pouca sorte - ganhei dela. Fiz questão de gastar todo o dinheiro que tinha ganho naquela mesa com ela. Era o tipo de mulher que é difícil de dizer oi, e pior ainda de manter um assunto por mais de três minutos, tinha respostas curtas, grossas, e conseguia sempre me fazer parecer um bobo. Ironizava cada frase minha, mas nunca recusava outra cerveja, ou outra dose de uísque... bebida vai, bebida vem, e eu consegui conversar com ela.

Não era má pessoa, nem problemática - em parte -, tinha deixado um ex-namorado que era viciado em cocaína, e ia ser despejada no semana seguinte, tinha dívidas até o pescoço, e estava andando pelos bares pelo mesmo motivo que o meu, precisava de grana, e tinha ficado muito preocupada após ter perdido para mim... Isso significava que não teria dinheiro para começar as apostas na noite seguinte. Era mais uma perdida, que nem eu, talvez eu tenha visto isso no olhar dela, talvez eu tenha sentido que nela havia algo que eu não tinha encontrado em nenhuma outra pessoa antes...Ela possuía o brilho no olhar, sim, eu sabia!

Passamos a noite conversando, rimos bastante, ela abriu o jogo, contou-me toda sua vida - meu deus, não sabia que alguém com vinte e cinco anos pudesse ter tanta historia -, não sei se era tudo verdade, mas na hora eu estava encantado demais para pensar nisso. Ela fez questão de me ouvir também, não que eu tivesse muita coisa pra contar, e não sou muito bom com as palavras, mas ela gostou da parte de ter trocado meu carro por três dentes de um chefe presunçoso - ela colocou desse jeito, e eu gostei. Contei-lhe que nunca tinha tido muitas aventuras durante a minha vida (na parte amorosa, financeira, e em todas que eu consegui pensar), e que eu estava vivendo com dinheiro da jogatina, e que não era tão ruim, apesar do remorso que às vezes me deixava com pena daqueles pobres homens.

Logo estava quase amanhecendo, o bar tinha fechado, e nós estávamos sentados na calçada, tomando as ultimas garrafas de cerveja, e basicamente, estávamos naquela fase de "amigos de longa data em uma noite", quando o papo se resume nos "detalhes finais" e na despedida... combinamos de sair mais vezes, e jogarmos juntos, para assim ganharmos mais, e talvez, se nos déssemos bem, ela poderia vira morar comigo. Na hora, me pareceu perfeito, e pela cara dela, também, pois ela tinha perdido pra mim por detalhe, jogava tão bem quanto eu, talvez melhor, nós seríamos uma ótima equipe de dois...

Nós nos despedimos, e quando estávamos quase indo embora, nos beijamos. Foi um beijo natural, espontâneo, sem pressa, mas ainda assim, incrível. O beijo dela tinha gosto de cerveja e de paixão. Tinha emoção e vontade nele. Eu certamente nunca tinha beijado outra mulher assim... eu juro que senti meu mundo todo rodar. Eu nunca pensei que fosse dizer isso, mas, meu mundo parou naquela hora, não sei se ficamos nos beijando por cinco segundos, ou duas horas, mas eu sei que não queria deixar ela ir, eu queria beijá-la pelo resto da eternidade. Mas, assim, meio de repente, o beijo acabou, ambos sentimos a vontade de parar, nos olhamos, e sem mais uma palavra, cada um foi pro seu canto.

Fiquei mais ou menos uma semana sem vê-la, eu tinha pensado nela todos os dias desde aquele dia, eu pensava nela incessantemente - ou pelo menos parecia isso -, será que aquele maldito beijo estragou toda a conversa? Será que tudo que tínhamos combinado foi jogado no ralo com aquele único beijo? Eu tentava me convencer que não, mas a ausência dela me dizia o contrário... Até que, meio do nada, ela aparece em um desses bares pelos quais eu andava lucrando mais, e começou a falar comigo como se já fossemos amigos de longa data, eu estranhei isso, mas de qualquer jeito, eu só tinha visto Suzane uma vez, e ainda que tivéssemos passado a noite inteira conversando, e que nossas vidas fossem agora um livro aberto, tinha sido apenas uma noite....

Suzane me puxou de canto, e começou a tagarelar - literalmente, abrindo a matraca - sobre como poderíamos lucrar mais, e em qual mesa, e com quais métodos, eu estava meio pasmo com a situação, mas "entrei no jogo" e comecei a negociar qual seria a melhor forma de lucrar como uma dupla. Logo decidimos que iríamos entrar no bar como desconhecidos, e iríamos, nos desafiar, e fazer subir as apostas, e a medida que mais pessoas fossem aparecendo, um de nós iria perder de forma humilhante - no caso quem perderia seria eu, pois ela dizia que um homem que perde fica sem honra, e uma mulher que perde ganha bebida de graça a noite toda, só ela riu da piadinha -, e que após perder, eu no caso, iria tentar recuperar meu dinheiro com apostas menores, e como eu teria perdido para uma mulher, eles iriam achar que eu não jogava nada, e logo iriam apostar comigo, e a partir daí, eu começaria a ganhar deles, até que eles apostassem tudo em nome da "honra de bar" deles - foi esse o termo que ela usou - enquanto isso, ela iria tentar a sorte com apostas menores por aí.

No começo da noite isso não funcionou tão bem, lucramos muito pouco no primeiro bar, só o suficiente para pagar as bebidas e começar as apostas no próximo bar. Era só questão de tempo, logo estávamos agindo como um time, e começamos a lucrar pesado a partir do segundo bar, e cada vez aparecia mais gente querendo ganhar daquela "mulherzinha que acha que joga", pobres homens, perderam tanto pra ela, que muitos foram pra casa após perderem todo o dinheiro que tinham na carteira. E os que não iam embora, tentavam recuperar jogando comigo, nada esperto da parte deles, eu tirava deles qualquer coisa que tinham, cheguei a ganhar um relógio de um cara meio louco. Muitas famílias ficaram com fome naquela noite, e eu não me sinto mal por isso. Fomos ao todo em cinco bares naquela noite, lucramos em torno de setecentos e vinte paus...isso era mais que meu aluguel! Antes da noite acabar, compramos dois fardos de meia dúzia de cervejas, e sentamos numa praça bem quieta para beber e conversar um pouco, tínhamos trabalhado demais naquela noite...

Jogamos papo fora por mais de uma hora, mas estava muito tarde - ou cedo, depende do ponto de vista - e eu estava caindo de sono, nos despedimos, sem beijo dessa vez, apenas combinamos de qualquer dia dessas jogarmos mais por ai, em outros bares, ela queria ir nos bares das áreas mais chiques da cidade, dizia que lá iríamos lucrar duzentos - ou mais - por mesa. Eu. claro, concordei, não era bom em discordar dela, tudo que ela falava parecia legal, e certo demais pra ser contrariado. Talvez fosse. Quando ela virou as costas e saiu andando, eu tive de ficar olhando até não conseguir vê-la mais, devo ter ficado mais de cinco minutos em pé, só olhando ela se afastar. E ela não olhou uma única vez para trás. Fui para casa, com o bolso cheio de dinheiro, e o coração cheio de esperança. Deitei, e dormi, deve ter sido a noite mais bem dormida da minha vida, pois quando acordei, eu era um homem novo.

Decidi não jogar naquela noite, tinha dinheiro suficiente, e não estava com muita vontade de sair de casa. Fui no mercado comprar comida e umas cervejas, eu já não cozinhava tinha duas semanas, e estava na hora de usar aquele fogão, e as panelas. Fiz um almoço decente pra mim, e queria Suzane lá, ela iria gostar da minha comida. Fui assistir televisão, e lembrei-me dos comentários que ela fazia sobre como a televisão era coisa de gente burra. Eu gosto de televisão. Passei o dia na cama, e dormi depois de tomar minha ultima cerveja.

Bom, gente honesta precisa trabalhar, e eu precisava voltar a jogar. Não era uma única noite que iria me fazer perder uma semana de jogo. E apesar de não ter muita vontade de jogar,  eu fui perambular pelos bares costumeiros. Joguei com as pessoas de sempre, que perdiam as quantias de sempre, mas que nunca aprendiam, ainda bem, era esse o tipo de gente que pagava meu aluguel. E eu suspeito que eles jogavam comigo mais pelo papo que eu proporcionava, do que qualquer outra coisa. Tem muita gente por aí que, igual a mim, não tem família, mas tem dinheiro, e não ligavam de perder dez ou vinte paus se fosse pra ter quinze minutos de companhia. Eu não tinha emprego, não tinha dinheiro, e não estava precisando de companhia. Bom pra mim, assim não tinha nenhum peso na consciência ao ganhar deles. E passou-se mais uma noite, mais duas, três noites. Logo completou mais uma semana que eu não via Suzane. Mesmo assim, eu continuava jogando, e lucrando o mesmo de sempre. Parece que eu tinha um novo emprego, só que esse deixava-me beber, e conhecer gente nova. Era muito interessante, eu até comecei a gostar dessa rotina, ainda que visse muita gente nos mesmos lugares todos os dias, essas pessoas eram mais dignas de estarem lá. Mas sem Suzane não era a mesma coisa, eu tinha visto ela duas vezes na minha vida, e parecia que ela tinha tomado as rédeas da minha vida.

Fato é que hoje faz um mês que não vejo mais aqueles olhos faiscantes, um mês sem conversas sobre minha vida, ou a dela. Eu já estou aprendendo a saber que nunca mais irei vê-la. E sabe, não é de todo mal, a unica vez que ganhei dela, fiquei sem minha grana. Eu ainda acho que ela seja um pássaro, desses mais bonitos, que saibam voar, e ela voou, viu que não tinha nada pra fazer aqui do meu lado.  E talvez eu seja um frango, não dentro de um trem, mas agora seja um cara com o olhar perdido que trabalha em um bar, ganhando dinheiro de gente honesta. Agora talvez eu entenda o motivo de tanta gente não ter esperanças. O motivo que faz as pessoas trabalharem em empregos que odeiam, viver vidas que as fazem sentir nojo. Eu agora entendo isso... Todos somos pássaros e sabemos voar, mas sempre tem uma pessoa que aparece, e nos rouba a vontade de voar. E por isso nós nos tornamos frangos, sem vontade de voar, nem de lutar, apenas deixando que cada dia passe, sem sabor, nem cor, e sem o aroma dos cabelos de Suzane.